segunda-feira, julho 16, 2018
Tudo de mim
Eu era uma jornalista de renome. Era, pois perdi-me. Tinha tudo o que podia desejar. Uma carreira de sucesso, viagens…. Só não tinha o amor. Esse, tinha o perdido, entre mentiras e falsidades. O que se passara, então? Muita coisa, muita que não queria acreditar, abrir os olhos. Só os queria fechar e não os abrir mais.
Entretanto a vida seguira. Eu cuidava da nossa filha. Morávamos na casa dos meus pais para que o transtorno da mudança não a afectasse. Sim, era feliz, à minha maneira.
Um dia, decidi que estava na altura de escrever um livro sobre a minha vida, até então. Uma história sobre as minhas aventuras nas viagens. Nada que afectasse a minha vida intima. Não queria a minha filha ou o pai dela espelhado no livro. No entanto, foi o que acabou por ocorrer. Senti-me mal e bem, por o fazer. A vida tem as suas diferentes razões…
Depois, a apresentação do livro. Ocorreu em Lisboa, a primeira, e foi um sucesso. Nem eu esperava assim tanta gente. Depois, vinha outra apresentação. No Porto. Era onde ele estava. Só rezava para que ele não fosse me ver. Ainda para mais, com a nova namorada, que devia ter os mesmos problemas de ‘saúde’ que ele, pelo que me constava… Isto, vindo da própria boca dele.
Chegou o dia e ele apareceu. Ou não tivesse a nossa filha falado no assunto para o pai. Apareceu e vinha, realmente, acompanhado. Estava preparada para tudo, menos para ser humilhada.
- Olá, Francisca. – Disse ele.
- Olá. Pretendes uma dedicatória agradável ou vens aqui para outra coisa? – Perguntei.
- Na verdade, venho aqui para outra coisa.
- Olha a novidade. – Disse eu.
- Deixa-o falar. – Pediu a namorada dele, como se fosse algo de sério.
- O que venho aqui para te dizer é que…. Tinhas razão. Eu traí-te mesmo. No dia do parto da nossa filha não te fui ver porque estava ‘ocupado’.
Calei-me. Engoli a raiva e pedi a quem me acompanhava para ir à casa de banho. Quando voltei, ele ainda ali estava. Sentei-me.
- Podes fazer o favor de sair? Tenho pessoas, humanas, para atender. Não restos de raça humana como tu. Sais por vontade própria ou é preciso chamar alguém?
- Eu saio, não há problema. Diz à nossa filha que lhe mando carinhos.
- Diz tu. Experimenta telefonar-lhe e dizer-lhe, também, a verdadeira razão porque não assististe ao parto dela. – Disse eu, em raiva crescente.
Saíram os dois. Ela nada fez, apenas assistiu. Eu queria me vingar deles. E ia consegui-lo.
Passado uns dias, ouvi o pai da minha filha falar para ela que se ia casar com a namorada. Senti cá uma pontada. Que fazia aquela relação ser diferente da nossa? Mas ia me vingar. No dia seguinte, aproveitando uns dias de descanso, contactei um detective privado. Queria descobrir tudo sobre ele. Ele não podia ter mudado tanto assim. Decerto tinha alguma amante.
Em poucos dias o soube. Ele, desta vez não tinha ninguém, além de a noiva. Bem, era altura de o ter. com a ajuda do detective privado, arranjamos uma rapariga bonita para servir de isco. Com longos cabelos loiros, um corpo de matar e olhos azuis-profundos, iria conseguir. E, em poucos dias, logro-o. Felizes com a nossa conquista, não esperávamos que a rapariga se apaixonasse por ele. Mas foi o que aconteceu. Então, a poucos dias do casamento, arranjamos forma de a convencer a ajudar-nos a acabar com o casamento. A principio ela recusou. Mas, depois de a fazermos ver que só seria feliz com ele se o casamento com a outra não acontecesse, ela aceitou. Um dia antes do casamento, ela pediu para se encontrar com o meu ex. disse que era urgente. Preparou-lhe uma bebida com comprimidos para dormir e deu-lhe. Depois, revelou-lhe que ele não iria sair dali para o casamento. Ele, caindo em sono, nem conseguia se aperceber bem do que ela dizia.
Dia seguinte. Já era tarde quando ele se levantou. Estava nu na cama da amante. Vendo que eram 10 da manhã, correu a vestir-se, mas não encontrou a roupa em lado nenhum. Acordou a amante, então. Ela avisou-lhe que ele não se casaria, que fosse nu, se quisesse. Mas ele lá arranjou uma camisa e uns boxers e saiu, pegando no carro dele.
Na igreja, vinha toda a gente a sair. A noiva, chorando, admirou-se quando viu o carro dele e pediu para toda a gente voltar. Mas ao ver o estado em que o noivo saiu do automóvel, arrependeu-se. Gritou com ele, xingou-o…. Recusou-se a casar com ele.
De longe, eu e o detective privado assistíamos a tudo, como se estivéssemos na primeira fila. Na verdade, o próprio detective privado disse que tínhamos ido longe demais. Mas eu não quis saber. Agora sim, estava feliz, ela havia provado do mesmo veneno que eu: a traição. Ele que se desenvencilhasse, eu não estava nem aí, mais.
Voltei para casa. Fingi que tinha estado numas férias no Alentejo. Os meus pais é que foram buscar a minha filha. Agora podia dizer que estava completa, com ela por perto. E eles longe…
O monstro em mim
No fundo do espelho eu te vejo. Será que te reconheço? Passaram anos e ainda vejo a criança em mim.
Ainda me lembro da brincadeira que fazíamos. De nos esconder-nos dela, debaixo da mesa, atrás da porta, no armário…. Riamo-nos tanto. Foi nessa altura que o monstro que há em mim despertou. Comecei a achar engraçado picar-te com agulhas, ferir-te com navalhas… Tu não te queixavas, sempre foste valente. Foi fácil infligir-te dor, pois, por mais que doesse, tu querias sempre mais, mais, mais…
Olho-me no espelho e vejo as marcas. Pois tu sempre foste eu…
O amor a uma árvore
Jaime cuidava do seu pomar de maçãs. Tinha muito orgulho nelas. As suas maçãs preferidas eram as vermelhas, as do amor. Doces, macias, não havia melhor.
Um dia, chegou ao seu pomar para recolher as maçãs e reparou que uma das macieiras estava marcada. Tinha um coração, com letras lá dentro escritas. Não sabia quem era o S e o L, mas decerto iria saber. Aproximou-se da macieira. Quase que sentia um coração ferido a bater. Mas quem seria que invadira o seu pomar e deixara aquela marca?
Vários dias passaram e voltou a acontecer o mesmo. Aí, enfureceu-se a valer. Nenhum empregado jamais lhe tinha visto uma face assim. Temeram por si próprios. E deviam. Pois Jaime pôs tudo a ferro e fogo, que iria descobrir quem havia feito aquilo e bater-lhe a valer.
Uma noite, decidiu ir espreitar o pomar. Conhecedor dos terrenos, sabia como ir sem fazer ruído. Levou uma pequena lanterna, para o caso de se ver atrapalhado. Acabou por apanhar um casal a fazer amor, encostado a uma árvore. Tentou ver quem era. Como não conseguia, apesar da lanterna deles iluminar o local, aproximou-se, acabando por pisar um galho. Ao ouvirem barulho, o casal parou e olhou em volta. Ao verem Jaime, atrapalharam-se.
- Então, da Vinci, eras tu que andavas a deixar marcas? - Disse Jaime para Leonardo, a quem tratava pela alcunha de da Vinci.
- Sabe, patrão, são os calores do amor...
- Os calores do quê? Eu já te dou os calores... - Disse Jaime, tentando apanhar Sara, que lhe fugia por detrás de da Vinci.
De repente, tropeçou numa raiz. Deitado no chão, nem se apercebeu que da Vinci avançava com uma navalha, a mesma com que havia rasgado a árvore. Ia quase a espetar-lhe-a no peito, quando a atirou para o lado.
- Isto.... É um aviso, senhor Jaime. Nunca mais atente contra a minha vida ou a de Sara. Pode ser errado o que fizemos, mas não merecemos essa reação. - Disse da Vinci.
Jaime acenou com a cabeça que sim, havia compreendido.
No dia seguinte Sara e da Vinci chegaram atrasados ao trabalho, mas muito seguros de si próprios. Jaime não estava, quem estava era um capataz, que os informou que estavam despedidos. Primeiro veio o choque, depois as suplicas. No fim, a conformação. Acabaram por ir embora, sob o olhar longínquo de Jaime...
Carta de um filho abandonado
Mãe, porque me abandonaste? Preciso muito de você, há tanto que preciso te contar. Preciso te dizer o que se passou comigo desde que deixaste na rua. Tenho fome, sabes? Tentei pedir comida, mas poucos me deram. Me deram dinheiro, pensei que dava para comida, mas as lojas não aceitaram, disseram que era apenas uns trocos. Saí morrendo de vergonha e esfomeado. Depois, um senhor, vendo o meu estado, me disse que sabia onde tu estavas, que me conhecia. Quis tanto acreditar! Deixei ele me levar onde ele queria. Acabamos no quarto de motel. O que ele me fez... Não há palavras para o descrever. Ele, depois me deu de comer e beber, para esquecer o que tinha acontecido e não o contar a ninguém. Mas preciso tanto contar a você, mãe, tudo o que se passou comigo.
Como estarão meus irmãos mais novos, seus filhos e de seu novo namorado? Estarão bem ou também os abandonou? Eu posso cuidar deles, se precisar. Não os abandone também, como fez comigo. Não sabe quantas vezes chorei em silêncio, sabendo que ninguém viria me salvar.
Aquele homem que dizia te conhecer vem me visitar às vezes. Me leva para o motel, me dá de comer. Eu aceito, mais ninguém cuida de mim. Diz que tem amigos que gostariam de me conhecer, que não me farão mal.
Eu sinto a sua falta, mãe. A falta de seus carinhos, de seu beijo à noite, antes de dormir. Agora minha cama é o cimento. Passo frio. Seu namorado ainda está zangado comigo, por fazer muita bagunça e comer muito? Eu aprendi a comer menos, e a fazer menos bagunça.
Vem me buscar, mãe? Eu te amo.
A vontade de morrer pode ser mais forte
Ele desejava ser livre. Ele viu a ave voando lá fora e desejou poder alcançá-la. Fechado naquela sala por opção da sua família, a vida era algo diferente. Tudo porque os médicos disseram que que ele estava doente. O seu único erro era amar pessoas do mesmo sexo. Enquanto esperava para ser enviado para algum lugar onde cuidavam de pessoas com essa ‘doença’, ele sonhava ser livre. Ele olhou uma ultima vez lá para fora e, depois, para o seu cinto, pendurado no teto. Não havia outra opção…
Não sei que ano era. Podia ser 1600 ou 1957, a mentalidade era a mesma. Tratado como se de um louco se tratasse, Diogo lutava por a sua libertação. Tinha como ídolo Federico Garcia Lorca, o poeta morto pela sua posição politica. Ou seria pela sua sexualidade? Não sabia ao certo. Só sabia que a sua leitura, naquela casa, era proibida. Tinha sido por isso que o havia descoberto. Tinham-no apanhado a ler às escondidas os seus poemas. Só por aí, deduziram que ele fosse gay. Não que ele o tivesse alguma vez demonstrado. Sempre retraído, só a muito custo (e à força de empurrão da família) se aproximava das raparigas. Queria sempre ir jogar com os rapazes. Ainda tinha duvidas quando o prenderam, mas já não. Agora sabia que era homossexual, ou lá como lhe chamavam. Diziam que era um vicio, que começava em criança que era comum em pessoas que tinham sido abusadas em crianças. Mas Diogo nunca tinha sido abusado. Simplesmente era homossexual. Era natural para ele, tal como para os demais era natural serem heterossexuais. No entanto, a sua mãe o deixava confuso. Muito religiosa, rezava muito. Mas, quando distraídas, olhava, sedenta, para os peitos das amigas. E depois rezava, ainda mais. Tinha quase a certeza que ela era lésbica, mas reprimida pelo julgamento da sociedade. Principalmente da sua mãe. Havia sido ela a determinar a ‘prisão’ de Diogo. Por isso o seu pai havia traído tanta vez a mãe. Ela recusava, dizendo por motivos religiosos, deitar-se na mesma cama que o marido. Dizia que era o pecado da carne.
Mais uma vez, olhou para o cinto. Pronto a matar-se por sua causa, enfiou a cabeça dentro do circulo que havia deixado solto. Nesse preciso momento entraram na sala. Diogo, atrapalhado, empurrou a cadeira com os pés. De imediato foi seguro pelo primo. Era ele quem havia entrado.
- Venham cá! – Disse Fernando. – Diogo, no que te metes… Não te debatas, pá!
- Larga-me… - Dizia Diogo, debatendo-se.
Depressa estavam lá os outros primos, o pai, a mãe, a avó. Rapidamente o tiraram do cinto.
- Vejam! – Começou a avó. – Isto é o sinal que o diabo está entre nós. Temos de chamar o padre!
- Mas chamar para quê! Tire essas ideias da cabeça. O rapaz gosta de rapazes, tão só. – Disse o seu pai, mais aberto ao mundo.
- Cale-se, que quem manda nesta casa ainda sou eu. Que vergonha, fui casar a minha rica filha com um desnaturado.
- Você não me chama isso…
- Ou o quê? Bate-me? Saia desta sala, agora!
O pai de Diogo ainda resmungou, mas, ao ver que não tinha apoio nenhum, retirou-se. Ele sempre achara normal o feitio do rapaz. Ele também reparara no jeito de ser da sua esposa, e não levava a mal. Mesmo assim, mesmo traindo-a, era apaixonado por ela.
- Chamem o padre, já. E prendam o Diogo à cama. – Disse a avó.
- Não, não me façam isso. Não!
Prenderam-no à cama. A Diogo só restava aguardar…
O padre chegou. Logo, sabendo pela avó o que se passava com ele e qual o sucedido que o levara a chamarem, ordenou que o fechassem no quarto com o doente. Mas antes, que lhe dessem uma larga vara, para punir o mau espirito que havia dentro de si. Assim o fizeram. Conforme iam fechando a porta, o padre ia dizendo as rezas. Conforme fecharam a porta e o padre sentiu que já estavam longe, parou.
- Com que então homossexual… Gostas de levar pelo cu… Eu vou te dar uma lição preciosa, espero que aproveites…
Conforme disse isso, tirou as calças a Diogo. Ele tentava se debater, mas só fazia pior. O padre pegou na vara e enfiou-a pelo rabo de Diogo acima, brincando com ela. Enquanto isso ia gritando rezas, cada vez mais alto, conforme os gritos de Diogo. Quando acabou, Diogo sangrava do rabo, e havia soltado os intestinos. Chamou para destrancarem o quarto, após lavar a vara com que havia penetrado Diogo.
- Não digam nada. – Disse o Padre. – O diabo saiu por o orifício que queria retirar prazer carnal, pelo rabo.
A avó entrou, temendo, para ver o resultado. Assustou-se, mas, decerto, o diabo tinha saído, tal como o padre havia dito. Agradeceu muito e ficou a observar como os primos se aproximavam dele, rindo-se da sua condição. Diogo tentava gritar ‘Ajudem-me’. Mas, por estar tão fraco, não o conseguia. Finalmente soltaram-no. Levaram-no para a casa de banho, onde lhe deram banho de água gelada. Como se não fosse só isso, não chamaram nenhum médico. Acharam que aquilo era resto do diabo que havia corrompido o seu corpo, e tão só. Que melhoraria a partir daí.
Passaram dias e ele não melhorava. Temendo verdadeiramente pela vida dele, a avó mandou chamar o médico. O homem, verdadeiro profissional dedicado à causa de cuidar dos pacientes, mas sabendo das causas que o levaram aquele estado, determinou o imediato internamento de Diogo. Ele, fraco demais para lutar, deixou-se ir.
No hospício, começaram por lhe dar verdadeiros cuidados médicos. Demorou umas semanas a sentir-se melhor, mas, quando viram que já podia andar, despacharam-no para outra secção, a dos malucos. Lá, trataram-no com o maior desprezo possível. Sofrendo às mãos dele, Diogo suplicava para que o soltassem.
- Só quando deixares de querer corromper crianças. – Respondiam eles.
Ele nem sabia o que aquilo tinha a ver com a sua sexualidade. É claro que não faria mal a crianças, nem lhe passava pela cabeça fazê-lo. Mas, cada vez mais duvidava da sua sexualidade. Talvez gostasse de raparigas, afinal. Mas era tímido, até demais. E, também, elas pareciam tão frágeis. Não sabia, na verdade não o sabia.
Passado oito meses libertaram-no, com a indicação que era impossível curá-lo. A avó, transtornada, perguntou porque não o podiam receber para sempre. Disseram que naquele hospício não aceitavam internamentos desses, que procurasse outro. Mas aquele era do Bom Jesus, era religioso. A avó não o imaginava noutro hospício. Prenderam-no, novamente, na sala, mas sem cinto. Enquanto debatiam se haviam de chamar o padre outra vez para outro exorcismo, decidiram que iriam procurar tratamento para ele na província. Naturais da beira alta, o que não faltava lá era religiosidade. Mas Diogo não aguentava mais. Ele queria ser livre. Ao jantar, esperou que a avó adormecesse enquanto o vigiava, como fazia sempre. Sem ela saber, abriu os pulsos, sangrando profusamente. E simplesmente esperou. Desta vez, ninguém apareceu, pois julgavam-no seguro com a avó…
Nunca digas nunca…
Abriu a porta e saiu, esvarocida. Não conseguia estar mais naquela sala, naquele ambiente. Tudo parecia esmagá-la. Não, não ia ser uma vítima. O seu chão podia ter desaparecido, mas não a sua vontade de lutar por algo que era seu. Por muito que custasse, ia voltar. Ia voltar ao que havia vivido, iria tornar-se 'melhor', aos olhos do marido...
Subiu as escadas e entrou, sossegada. Naquela sala estava o marido, a mãe dele e o seu pai. Cláudia não tinha ninguém a seu favor. Mesmo assim, entrou e sentou-se, escutando.
- Não vales nada, não sabes fazer nada. É o jantar atrasado, é a roupa por passar, a louça por lavar…
Nesse momento Cláudia agradeceu o facto de os seus dois filhos estarem na escola.
- Sim, o meu filho tem razão. – Disse a sogra de Cláudia. – Você não é mulher, não é nada. Devia estar agradecida por o meu filho estar consigo, mais ninguém lhe pegava.
Nesse momento sentiu o sangue a ferver.
- Chega. Esta é a minha casa, paga com o meu dinheiro e o dos meus pais. Nada aqui é vosso, por isso partam.
Nesse momento o sogro disse alguns impropérios e o marido deu uma chapada a Cláudia.
- Se estás farta, parte. Mas não levas nada, nem os nossos filhos. Esta casa é minha, porra.
Cláudia, sentindo-se ameaçada, foi para o quarto. Não chorou, pois já estava acostumada a sofrer. Mas um sentimento lhe pesava: medo. Medo de perder os seus filhos. Podia perder tudo, mas ficar sem os filhos não. O marido nem lhes ligava, mal dava por eles e pelas suas tarefas. Era Cláudia quem os ajudava nas tarefas escolares, quem fazia tudo por eles. Tinha de sair. Não sabia como, mas tinha de o fazer. Com a ajuda dos pais? O pai era um homem cordial que nunca lhe tinha levantado a mão. A mãe, nervosa e controladora, se a ajudasse era para lhe mandar na vida. O casamento havia sido a sua fuga. Agora, era a sua possível morte. Não podia pedir ajuda a eles. Quem sabe alguma amiga no trabalho a ajudava?
Pensando nisso, limpou as lágrimas. Os seus filhos estavam quase a chegar da escola. Queria estar bem para eles. Também tinha uma réstia de esperança no seu coração, que a levava a sentir-se melhor.
O fim de semana passou sem mais chatices. Domingo à tarde os seus sogros partiram para a terra deles, finalmente. Cláudia sentiu-se melhor, com a saída deles. Sensação que durou pouco tempo. Depois de eles saírem o marido, bêbado, exigiu relações sexuais. Cláudia disse que não, que não sentia vontade.
- Quer tu sintas vontade ou não, vamos fazer. Eu quero e pronto. Está nas obrigações da esposa, nos ritos religiosos. Uma esposa deve obedecer ao marido. – Disse Hélder, o marido.
- Em que anos vives tu, em 1964? – Disse Cláudia.
A resposta de Hélder foi uma chapada bem forte à mulher, em que esta bateu com a cabeça na parede, levando-a quase a desmaiar. Os filhos, assustados, foram ver o que se passavam. Viram a mãe a ser levada em ombros pelo pai para o seu quarto. Lá, Hélder trancou o quarto. Cláudia sentia que estava a assistir à sua própria violação. Não se sentia na sua pessoa, mas como uma observante. Quando ele acabou e se virou para o lado, adormecendo, ela roubou-lhe a chave quarto e, vestida apenas com um robe, foi ver como estavam os seus filhos. Esfomeados, tinham atacado uma caixa de bolachas que Cláudia tinha tentado colocar fora do alcance deles. Quando eles já jantavam, foi se lavar, finalmente. Sentia-se suja por dentro. O seu marido era um monstro, simplesmente isso.
Depois de isso, saiu da casa de banho e correu para ver os seus filhos. Estavam a acabar de jantar. Foi arranjar as suas roupas para dormir e para vestir no dia seguinte. Passou-as a ferro, antes. Deitou-os, deu-lhes um beijo de boas noites e apagou-lhes as luzes. Depois, foi passar mais roupa.
Segunda-feira chegou. Depois de preparar os filhos para a escola e os ver partir no autocarro escolar, foi para o emprego, na fábrica. Lá, desabafou com uma colega, que se dispôs de imediato a ajudá-la. E, tendo uma relação de amizade com o chefe de secção, falou do seu assunto com ele. Também se dispôs a ajudá-la, dizendo que tinha uma casa vazia na cidade que Cláudia podia usar. Cláudia aceitou, de imediato. Combinaram sair mais cedo, sem penalizações para Cláudia e para a colega, para irem buscar algo a casa, para a mudança. O seu marido saía às seis, sendo que tinham duas horas. Pegaram nalgumas roupas suas e das crianças e levaram para a nova casa.
Quase na hora de o marido sair do trabalho e as crianças chegarem, deixaram-na lá. Fariam o resto das mudanças noutro dia.
O marido chegou. Tudo normal, as crianças estavam a divertir-se, ainda, antes de fazerem os trabalhos de casa e depois de lancharem. Parecia não ter visto nada de anormal. Tomou banho, vestiu-se e saiu para o café.
Tudo correu bem. Até às dez, quando o marido, podre de bêbado, chegou a casa, esvarocido. Cláudia, sem entender o motivo do marido do marido estar assim, mandou rapidamente as crianças para a cama. O marido, esse, não dizia coisa com coisa.
- E porque tu… Hip… Não sais daqui… Hip… porque… - Dizia Hélder.
Cláudia, já depois de deitar os filhos e farta da conversa do marido, enfrentou-o.
- Mas que se passa, afinal? – Perguntou Cláudia.
- O que se passa é que és uma puta… Os vizinhos disseram-me que te viram com um homem e uma mulher a mudar coisas… Tu pensas que me abandonas, assim? Que levas os nossos filhos? Não. Só sais daqui morta.
E começou a espancar Cláudia, violentamente. Durou pouco tempo, pois ele, de tão bêbado que estava, se sentou e deixou-se dormir de imediato. Cláudia aproveitou e ligou á colega, que de imediato se pôs lá. Combinaram que o melhor a fazer era chamar a polícia, o que fizeram. Chegaram lá, e perante o estado de Cláudia, acordaram Hélder e levaram-no para a esquadra. Já Cláudia foi para o Hospital, fazer perícias. Os filhos ficaram ao cuidado da colega, que se prontificou a ajudá-la.
Depois de quatro horas no hospital, foi para casa. Já o marido ficou no posto da polícia, pois nem de pé se conseguia manter, quanto mais responder às perguntas que a polícia lhe fazia. Tudo estava bem, os seus filhos dormiam. Só a meio da manhã seguinte ficou a saber que o juiz o tinha mandado ficar na cadeia por dois dias. Tempo suficiente para Cláudia e os filhos se mudarem. Aconselharam-na a pedir ajuda a APAV, mas Cláudia recusou, pois encontrava-se protegida, achava ela.
Ao fim de dois dias, o marido saiu. Encontrou uma casa quase vazia. Cláudia tinha levado até o esquentador, a máquina de lavar, o fogão, pois a casa para onde se tinha mudado não tinha moveis. Hélder, zangado, jurou vingança…. Virou costas e pediu a um vizinho se podia ficar na casa dele. Ele acedeu, mas a esposa não. Recusou e recusou, mesmo sobre ameaça física. Não aguentava o marido, quanto mais o vizinho violento. Sim, toda a gente sabia o que se tinha passado. E todos lhes voltaram costas. Ainda mais zangado, procurou saber para onde a mulher se tinha mudado. Não lhe foi difícil saber. Chegou ao prédio onde ela estava e tocou a todas as campainhas. Todos responderam, zangados. Não se entendia nada. Algum vizinho, ingénuo, abriu a porta para ele entrar. Sem saber a porta exata, pôs-se a bater a todas as portas. Ninguém lhe abriu a porta, a não ser o tal vizinho ingénuo. Prontamente, ajudou-o a descobrir a porta da casa para onde alguém se tinha mudado, recentemente. Hélder agradeceu e, mal ele saiu de vista, arrombou a porta a pontapé. Ninguém estava em casa. Tudo o que encontrou destruiu. Nem se apercebeu nalgumas coisas. Roupas de mulher mais magra na tábua de passar a ferro, um quarto vazio, só com arrumações. Achou estranho, mas estava tão furioso que nem ligou.
Só no final do dia se veio a saber o que se havia passado. Uma estudante da universidade também se havia mudado recentemente. Tinha a casa destruída. Cláudia, essa, só podia estar agradecida por ele se ter enganado. Hélder foi preso, outra vez, e ficou em prisão preventiva. Cláudia ficou uns meses na mesma casa, até que aceitou a ajuda da APAV. Teve de deixar o emprego, mas era o melhor. Com uma excelente carta de recomendação, e com os filhos partiu para outra terra, onde esperava nunca ser encontrada por Hélder.
E tu que lês, conheces, vives ou viveste um pesadelo assim? Se sim, denuncia. Ninguém merece passar por maltratos, não está escrito em lado nenhum que o és obrigada/o.
quarta-feira, maio 30, 2018
Vida depois da morte
Ela estava farta. Embebedara-se para nada. Entre lágrimas,
ia guiando o carro. Sabia que estava bêbada demais, mas não tinha como deixar o
carro para trás. Afinal, tinha apanhado o namorado, agora ex, a trai-la.
Joana, assim era o nome dela, não se deu conta da curva da
estrada. Encandeada por um carro que vinha de frente, foi contra uma ribanceira
abaixo. O condutor do outro carro, alarmado pelo o que tinha acabado de
presenciar, saiu do automóvel e atirou-se à água, para salvar Joana. Com alguma
dificuldade, conseguiu chegar até Joana. Libertou-a do cinto, abriu a porta do
carro e levou-a, inconsciente, para terra. Não foi muito fácil, apesar de estar
numa noite primaveril.
Em terra, fez-lhe respiração boca a boca, até ela despertar.
- Está bem? – Perguntou Leonel.
Joana estava a tossir, vomitando água.
- Sim… Cof, cof…. Sim, estou bem.
- Eu vi-a… A cair. Mas está mesmo bem?
- Sim, estou bem melhor agora. Obrigada.
- Ora essa, qualquer um faria o mesmo. Desculpe lá aquilo
das luzes, pensei que não vinha ninguém.
- Não, não era qualquer um que faria isso. E não ligue, eu
vinha a chorar. Foi por essa razão que caí.
- Vamos, venha para o meu carro. – Disse Leonel. – Já
agora, porque vinha a chorar?
- Assuntos pessoais… Onde está o seu carro?
- Siga-me.
Joana seguiu-o. Ao chegarem, vendo que Joana tinha frio,
tirou o casaco do banco de trás e ofereceu-o a Joana.
- Obrigada, mais uma vez. – Disse Joana.
- Não precisa de agradecer. Não fiz mais que a minha
obrigação. Onde a posso levar?
- Eu vou para a cidade. Moro ao pé do café ‘Bora Lá.
- A sério? Também moro para esses lados. Eu levo-a lá.
E partiram no automóvel de Leonel.
- Já agora, chamo-me Leonel.
- Joana, prazer.
- Eu sei que são assuntos pessoais, mas… Não me quer mesmo
contar o porquê de vir a chorar?
- Desculpe, mas não. É um assunto intimo.
- Quem a ouvir, pensa que que se quis matar…
- Pare o carro. – Disse Joana. – Pare!
Leonel parou o veículo.
- O que se passa? – Perguntou Leonel.
- Olhe, agradeço-lhe a sua ajuda, mas está a fazer
suposições falsas sobre mim. Tome o seu casaco. Eu vou a pé. – Disse Joana,
saindo do veículo.
Leonel saiu atrás dela.
- Desculpe-me pelo o que lhe disse, mas entre no carro. A
noite está fresca, você está molhada e é perigoso, para uma bela jovem como
você, andar sozinha, aqui, no meio do nada. Por favor, entre. Juro que a levo
onde quiser e não lhe faço mais nenhuma pergunta. – Disse Leonel.
Joana ponderou por um momento, acabando por ceder e entrar
no carro, novamente.
- Tome, vista o casaco. – Disse Leonel.
Leonel cumpriu o que prometeu, durante o resto da viagem
manteve-se em silêncio, levando-a até onde ela quis. Depois de a deixar, ficou
a observá-la enquanto ela desaparecia nas sombras da noite.
Dias passaram e Joana recuperou do desgosto. Não
totalmente, mas estava melhor. Já saía com as amigas, mas evitava os locais
onde o ex pudesse estar. Entretanto, telefonou para a seguradora, para que lhe
fossem buscar o carro. Não que lhe fosse ficar barato. Mas tinha de fazer algo,
não o podia deixar ali. Tinha se esquecido de pedir o contacto do outro
condutor, mas algo lhe dizia que iria vê-lo outra vez…
Nem mais. Passado um dia, encontrou-o, por acaso, no café.
Ou assim pensava ela…
- OI? Olá, Leonel. – Disse Joana.
- Olá, Joana. Então, que fazes por aqui? – Perguntou
Leonel.
- Olha, venho descontrair um pouco. Já agora, que estamos
aqui, preciso do teu contacto…
- Oi?
- … E dos dados da tua seguradora, por causa do acidente.
- Ah. Sim, claro. Mas queres já ou esperas um pouco? É que
o carro está estacionado um pouco longe.
- Eu espero, não te preocupes. Deixa estar, eu confio em
ti. Ao contrário de em certas pessoas.
- Isso é uma boca para mim?
- Não, é para o meu ex. Era por ele que ia a chorar. –
Disse Joana.
- Ah. Posso saber o que se passou, cara linda?
- Nada de mais. Aliás, tudo de mais. Ele traiu-me, eu
apanhei-o enquanto me traía.
- Ui, que mau. Existem homens sem respeito nenhum pelas
mulheres.
- Bem, parece que me compreendes.
- E como não havia de te compreender? – Disse Leonel.
- Tens razão.
Leonel bebeu o resto do seu café.
- Bem, está na hora de me ir embora. Vou buscar os
documentos, mas…. Olha, queres que te leve a algum lado?
- Bem, se não te importares…. Podias me levar até à agencia
imobiliária onde trabalho.
- Mas claro, qual é?
- A Remax.
- É como se já lá estivesses. – Disse Leonel.
Foram os dois até ao carro de Leonel. Depois de tratarem
dos assuntos relativos à seguradora, Leonel, como prometido, levou-a até à
agência imobiliária.
- Fica bem, então. – Disse Leonel.
- Claro, obrigada pela boleia.
Despediram-se e cada um seguiu com a sua vida.
O que Joana não sabia é que, há uns dias que era vigiada
por Leonel. Ele seguira-a até ao prédio onde ela habitava, naquela noite.
Tinha-a seguido tão sorrateiramente que Joana não havia dado por nada. Afinal,
ele também morava perto. Não seria de desconfiar ver o seu carro passar. Mas o
plano não estava finalizado… Leonel queria muito mais que a seguir. Queria
mais, muito mais… E iria consegui-lo, fosse por que meio fosse.
Começaram a encontrar-se, coincidentemente. No mesmo café.
Como calhava aos dois estarem perto dele, não era de estranhar. Mas, agora,
quase sempre Joana chegava primeiro, entrando Leonel de seguida. Ele não
conseguia evitar esse erro de principiante, estava encantado por Joana. Até
que, um dia, Joana foi sincera com ele, ao vê-lo entrar.
- Leonel, anda cá. – Pediu Joana. – Andas a seguir-me?
Leonel sentiu um arrepio na espinha.
- Eu? Estás doida? Este café fica mesmo ao lado da minha
casa, acontece por coincidência encontrarmo-nos.
- Sim, mas… Sempre à mesma hora?
- Olha, não tenho tempo para isto, tenho de ir trabalhar.
Adeus. – Disse Leonel, saindo.
Joana ficou parva. Mas sabia que tinha razão. Não estava
louca, ele seguia-a mesmo. E o facto de ele ter fugido à conversa confirmava-o.
Mas agora não tinha tempo para pensar nisso, tinha de se apressar para ir para
o trabalho, ainda tinha um autocarro para apanhar.
Entretanto, o seu carro já estava na oficina. O mecânico
não lhe dera grande esperança, mas ia ver o que se podia fazer. Graças a Deus
que a seguradora de Leonel se prontificara a pagar o arranjo, se o houvesse. O
lado mau era que ainda teria de conviver um pouco com Leonel…
Os dias passaram, semanas, e nem sinal de Leonel. Apenas a
seguradora dele tinha ligado. Queriam saber se era verdade que Joana se tinha
distraído por estar a chorar, e não por estar encandeada pelo carro de Leonel.
Joana mentiu, claro. E, afinal, não havia testemunhas que a pudessem
contradizer. A seguradora acreditou. Disseram-lhe que era apenas uma
verificação, pois Leonel lhes havia contado isso. Joana enervou-se. Então ele
era assim? Tudo bem, estava na sua justiça. Mas sabia que, também, tinha os
máximos ligados, que havia ajudado na sua queda. Fosse como fosse, era culpado.
E, pelo o que tinha percebido, ele estava disposto a ir a tribunal. Mas a
seguradora ia lhe cortar as asas. Ou aceitava-se como culpado, ou a seguradora
terminaria o contrato com ele, após o pagamento a Joana. Leonel haveria de se
conformar.
Saiu tarde do emprego. E ainda tinha compras a fazer. ‘Que
raios’, pensou. Ficaria para outro dia. Por ora, teria de ir a pé para casa. A
essa hora já não partiam autocarros para onde ela morava. Mais uma vez, estava
a ser seguida. Mas Joana apercebeu-se. E, ao fazê-lo, começou a andar mais
rápido para casa. Mas Leonel também se apressou. Rapidamente, parecia que os
dois eram os únicos na rua. Joana, quando chegou, finalmente, olhou par trás.
Ele estava quase a alcança-la. Mas Joana conseguiu entrar e fechar a porta
atrás de si. Quando o fez, descontraiu-se. Mas foi só um momento. O momento
durante o qual Leonel tocou a outra campainha e pediu a um vizinho para lhe
abrir a porta, que se tinha esquecido da chave. Joana começou a subir as escadas,
apressadamente. Não demorou muito até ser apanhada por Leonel.
- Onde pensas que vais? Shiu, não grites… Silêncio…
Joana contorcia-se, mas não se conseguia libertar de
Leonel. Quanto mais tentava, mais se magoava. Leonel levou-a até sua casa.
Joana ficou admirada por ele saber qual era.
- Sabes, já aqui tinha vindo. Usei o mesmo truque para
entrar. Antes, foi só ver as campainhas para ver qual o andar e a letra que te
estava associado. Entretanto subi e verifiquei a porta que te pertencia.
- És um louco, um desvairado…
- Cala-te! Dá-me a chave. Vá, dá-ma!
Joana entregou-lhe a chave.
- Vamos entrar… - Disse Leonel, com ela sempre presa.
Lá chegado, trancou a porta, guardou a chave e foi até à
cozinha, onde pegou em uma faca grande.
- Agora estás comigo.
- Olha, vai para uma certa parte. Socorro…
Leonel apressou-se até ela, para a calar. Agarrou-a e
colocou a faca ao nível do pescoço dela.
- Se fazes um barulho que seja, um qualquer barulho… Juro
que te mato.
- Está bem, está bem, eu calo-me. Que queres de mim?
Perguntou Joana, tremendo de medo.
- Quero muito de ti. Porque não me dizes onde é o teu
quarto?
Nesse momento, alguém tocou à campainha.
- Vizinha, está bem?
Leonel abriu a porta.
- Olá, como está? Estava a discutir com a minha namorada,
só isso… - Disse Leonel, escondendo a faca.
Joana assentiu, tendo sido avisava que, se soltasse um pio
que fosse, morreria.
- Mas eu não conheço o senhor…. É outro? – Perguntou o
vizinho.
- Sim, é recente. Agora se não se importa…
- Claro. – Disse vizinho, falando depois da porta se
fechar. - Grandessíssima puta. Acabou com um já anda com outro…
Leonel riu-se, ao ouvir aquilo.
- Parece que os teus vizinhos aprovam. Bem, vamos a
assuntos mais sérios. O quarto, onde é?
- Segue-me. – Disse Joana.
Ela já estava conformada. Nada de bom viria dali, mas não
tinha forma de o combater. Chegada ao quarto, ele agarrou-lhe no cabelo com
força e empurrou-a para a cama.
- Não te mexas…
Colocou-se em cima dela, rasgando as suas roupas com a
faca. Imóvel, ela apenas podia sentir as roupas a serem-lhe retiradas, sem se
mexer. Estava com muito medo.
Violou-a, uma e outra vez, enquanto a acariciava com a faca.
Joana queria gritar, mas não podia. Num sussurro, implorou.
- Para – Disse Joana; ao que ele se riu.
- Hahaha. Achas que esse pedido inútil me fará desistir?
Não, Joana, apenas me dá mais ganas. – Disse Leonel, enquanto se vinha dentro
dela.
Quando se sentiu, finalmente, satisfeito, levantou-se.
Joana estava desfeita.
- Agora sim, acabou. Deste-me prazer, miúda. Tenho pena que
isto acabe aqui.
Joana levantou-se, tentando se cobrir com os braços.
- Que queres dizer, acabar? – Perguntou ela.
- Vou ter de matar… - Disse Leonel.
- Não, não faças isso… - Implorou Joana. – Eu juro, eu não
vou revelar a ninguém o que aconteceu.
- E o que me vai dar garantias disso?
Joana permaneceu em silêncio.
Leonel foi até ela, com a faca pronta para atacar. Joana
fugiu como pode, lutou. Até que, sentido uma força dentro de si, atacou-o
conseguiu dominá-lo e atingi-lo com a faca. Leonel estava morto.
E agora, como esconderia o corpo? Não tinha coragem de
chamar a polícia, havia fatores que a podiam levar a uma condenação. Decidiu
arrasta-lo para a banheira, enquanto pensava no assunto. Telefonou a uma amiga
e pediu que fosse, imediatamente a sua casa. Vestiu uma roupa, não se podendo
lavar, pois o corpo estava na casa de banho.
A amiga não demorou muito a chegar. Assim que ouviu a
campainha, Joana correu a abrir a porta.
- Joana, o que se passa? Porque estás assim? – Perguntou
Alice, a amiga.
- Entra rápido. – Disse Joana.
Alice entrou.
- Agora diz, que tens? Choraste? – Perguntou Alice.
- Bem… Matei um homem.
- Tu o quê?
- Ele violou-me, ia-me matar. Ele seguia-me, forçou…
- Calma, vamos lá com calma. Conta-me desde o início.
Joana contou. Enquanto ia falando, levou-a ao quarto e
terminou na casa de banho.
- Bem, que história que me contas. – Disse Alice. – Para
que queres a minha ajuda? Porque não chamaste a polícia?
- Eu matei-o, percebes? Não importa o que aconteceu antes,
não importa que tenha sido em autodefesa. Eles vão prender-me, a minha vida vai
ficar destruída. Eu não posso deixar que isso aconteça. Tens de me ajudar.
- Sim, e que queres que eu faça? Que chame o meu irmão, que
já esteve na cadeia…? Espera, é isso que tu queres?
- Eu preciso de ajuda.
- E logo o meu irmão?
- Não tenho mais ninguém a quem pedir…
Alice respirou fundo, duas vezes.
- Bem, eu não te posso deixar assim. – Disse Alice,
pensando. – Eu vou-te ajudar, vou chamar o meu irmão. Com sorte, ele está a
divertir-se na noite. Não sabe fazer outra coisa desde que saiu da prisão.
- Obrigada, amiga. – Disse Joana.
Em menos de nada, o irmão de Alice estava lá. Vinha
acompanhado. E bêbado.
- Então, o que se passa? – Perguntou Jorge, o irmão de
Alice.
Desta vez, foi Alice quem explicou. Joana estava sentada no
sofá, chorando a cada palavra de Alice (como se revivesse os momentos que havia
passado).
- E é assim. – Concluiu Alice.
- Tu estás bem? – Perguntou Jorge a Joana.
- O que é que te parece? – Respondeu Alice, por sua vez.
- O que querem que façamos? – Perguntou Paulo, o amigo de
Jorge.
- Precisamos de esconder o corpo, de alguma forma, sem dar
nas vistas. – Disse Alice.
- Vai buscar a serra elétrica a casa, agora. – Pediu Jorge,
à irmã.
- É muito tarde, o barulho ia acordar os vizinhos. –
Respondeu Alice.
- Muito bem, mas não saio daqui. Amanhã vai trabalhar como
se nada fosse. Eu vou ficar cá a tratar do assunto. Tenta dormir algo. – Disse
Jorge.
- Eu também fico. – Disse Paulo.
- Anda, vamos mudar a cama. Eu durmo contigo, Joana. Disse
Alice.
Retiraram o corpo da banheira e puseram-no no chão, coberto
por sacos de plástico, para que Joana pudesse tomar banho sem se sentir
observada.
No dia seguinte, tal como combinado, Joana foi trabalhar.
Alice foi a casa dos pais buscar a serra elétrica, depois de telefonar para o
trabalho a dizer que estava constipada. Jorge e Paulo prepararam o corpo.
Joana pensou em ligar a Alice, a perguntar como estavam as
coisas, mas achou melhor não.
Acabou o dia normalmente e, não aguentando mais, correu para
casa. Ia tocar à campainha, mas lembrou-se que essa era a sua casa, pelo o que
não havia necessidade.
- Alice? – Chamou Joana, assim que entrou em casa.
Joana, nem imaginas o que se passou. Veio um vizinho
perguntar o que se estava a passar, que era aquele barulho todo. Tive de lhe
dizer que estávamos a renovar a casa de banho.
- Fizeste bem. E eles?
- Estão a descansar no quarto de hospedes. Têm de esperar
pela noite para levarem os pedaços do corpo. Já tomaram banho e mudaram de
roupa, que fui buscar. Não te importas, pois não?
- Não, claro que não. Então, está tudo bem?
- Bem, há algo mais que tenho de te contar…
- Diz, o que foi? – Pediu Joana.
- Estive a ver as redes sociais e surgiu, na net, um
anuncio de desaparecimento. Dele. – Disse Alice.
- A sério? Quem postou?
- Ao que parece, a namorada dele. Ainda não fez queixa na
polícia porque não pode. Mas fá-lo-á nas próximas horas…
- Temos de agir rápido.
- Calma, deixa-os dormir. Daqui a nada é noite e aí
poderemos fazer algo.
Assim o fizeram. Quando veio a noite, foram acordar Jorge e
Paulo. Foi uma tarefa árdua. Mas conseguiram, a muito custo.
- Já vamos… - Resmungou Jorge.
Passado um pouco, levantaram-se. Foram lavar a cara para
acordarem e seguiram em frente com o plano. Iam enterrar as várias partes do
corpo em diversos lugares. Alice e Joana ficaram para trás, a limpar
eficientemente a casa.
Não souberam deles por dois dias. Bem, souberam que Jorge
tinha ido para casa dormir de madrugada.
Alice também foi para casa. Só se voltaram a ver passado dois
dias depois, no sábado.
- Tudo bem, como estás? – Perguntou Alice.
- Menos mal. Tenho outro problema, agora. Não andava a
tomar a pílula… - Respondeu Joana.
- Estás louca, e só agora é que o dizes? Porque não fostes
pedir logo a pílula do dia seguinte?
- Não sei, por medo, vergonha, nervos. Que faço agora?
- Agora esperas que te venha o período. Se não vier, fazes
um aborto.
- Não, a criança não tem culpa do que aconteceu.
- Tu não estás bem. Queres deixar nascer o filho de um
violador?
- Ele não tem culpa. Não faço aborto nenhum.
Alice respirou fundo.
- Calma, vamos com calma. Respirar fundo, um, dois.
- Eu não consigo ter esta conversa contigo. – Disse Joana.
- Eu é que não consigo falar contigo. Às vezes, consegues
ser muito ingrata. Depois do que fizemos por ti… - Disse Alice.
- Shiu, cala-te. – Disse Joana.
As duas olharam para a televisão. Alice pegou no comando e
aumentou o som. Era uma peça sobre o desaparecimento de Leonel.
Quando acabou, as duas permaneceram caladas.
- Viste como a namorava chorava? – Disse Joana.
- Viste como eles falaram que ele era suspeito de umas
violações em série? – Respondeu Alice. – Estamos safas, não vês?
- Safas, safas de quê? Matei-o, lembras-te?
Joana começou a chorar.
- E se descobrem o corpo? – Acabou por dizer Joana.
- Se o encontrarem, só encontram partes. E ninguém anda
mesmo a procura-lo, a não ser pelos seus crimes. Descansa, Joana.
- Não sei, não sou capaz. Começo a pensar como tu. E se
estou grávida de um violador?
- Calma, vai tudo correr bem.
Passaram dois meses. O período de Joana não vinha.
Arrasada, decidiu fazer dois testes de gravidez, e telefonou a Alice para a
ajudar. Passado um bocado, Alice encontrou Joana a chorar.
- Que se passa? – Perguntou Alice.
- Deu positivo, os dois. – Respondeu Joana.
- Bem, não há solução: vamos fazer um aborto.
- Não, não vou fazer um aborto, já disse.
- Joana, essa conversa outra vez, não.
- E há mais…
- Que se passa, diz-me.
- Tenho sonhado como Leonel…
- Credo. Que não sejam sonhos molhados.
- Não, claro que não. Ele a vir visitar com um bebé no colo
a dizer: é teu.
- Ah, só isso?
- Há dois meses que tenho esse sonho. Há mais tenho sentido
o cheiro dele pela casa.
- Antes ou depois de morto?
- Antes, claro. Não sejas parva.
- Não estou a ser parva, estou a ser realista.
- Acho que ele me está a assombrar…
- Joana, tu passaste por algo que nunca ninguém devia
passar. É normal que o teu cérebro o reviva, mesmo contra a tua vontade.
- Alice, isto é diferente. Parece quase real.
- Joana, precisas de descansar. Vai dormir que eu espero
por ti na sala.
- Está bem…
Alice ligou novamente a televisão, para se distrair.
Enquanto isso, Joana descansava. Sonhava que um sangrento Leonel ia ter com ela
e lhe dizia: vou viver outra vez. E acordou, gritando.
- Joana, o que se passa? – Disse Alice, sonolenta.
- Ele está a assombrar-me, só pode. – Respondeu Joana.
- Olha, se vais continuar com essa conversa, vou para casa.
Sabes, tenho coisas para fazer. Tchau.
- Não, não vás… - Pediu Joana, inutilmente.
Nesse momento, uma jarra caiu. ‘Mas como é que isto é
possível?’, pensou Joana. A jarra estava bem no centro da mesa…
Os dias passaram e Joana sentiu o cheiro de Leonel com mais
intensidade. Alice lá a convenceu a ir a um médico, por duas razões: pela
gravidez e pela ‘assombração’. Joana foi, acompanhada do irmão de Alice. Ele
deu-se como ‘voluntário’ quando soube da gravidez de Joana.
- Então, miúda, tudo bem?
- Mais ou menos…. – Disse Joana, abrindo a boca de cansaço.
- Tchi, o que para aí vai. É tudo cansaço?
- Claro que é. Nem imaginas o que se tem passado comigo.
- Claro que sei. A Alice já me contou a cena da
assombração. Não acreditas mesmo nisso, pois não?
- Sei lá no que acredito…
- Senhora Joana…? – Chamou a enfermeira.
- Sim, vamos já. – Disse Jorge – Olha, não penses muito
nisso. Vai tudo correr bem.
- Senhora Joana? – Chamou a enfermeira, outra vez.
Os dois seguiram-na.
- Muito boa tarde, senhora Joana. Tudo bem consigo? –
Perguntou o médico.
- Tudo bem, e consigo? – Respondeu Joana.
- Tudo bem, obrigado. Então, conte-me lá o que a trouxe cá?
- Estou grávida. Bem, penso que estou. Quer dizer, fiz dois
testes e deram positivo… O meu período não me vem há dois meses.
- Bom, ponto de situação: está grávida. E suponho que este
jovem que a acompanha seja o pai.
- Sim, sou. Respondeu Jorge.
- Muito bem, vou lhe fazer alguns exames de rotina. Quer
estar presente? – Disse o médico para Jorge.
- Acho que vou lá fora… - Respondeu Jorge. – Tenho de fazer
uma chamada.
Nesse momento, a mesa com os instrumentos do médico caiu.
Jorge ficou atónito. Ninguém tocara na mesa. E se… Não, era uma questão de
equilíbrio.
- Desculpem, vou pedir à enfermeira que venha arrumar isto.
– Disse o médico.
E saiu da sala.
- Tu viste, não viste? – Perguntou Joana.
- Joana, a mesa estava mal equilibrada. Foi só isso, mais
nada.
- Tu vais acabar por acreditar em mim.
Nesse momento, entrou o medico acompanhado de uma
enfermeira.
Os exames correram bem, ela estava realmente grávida, e
estava tudo bem com o bebé. Quando Joana saía da sala, viu que Jorge estava a
discutir com alguém ao telemóvel. Aproximou-se para ver se ouvia a conversa.
- …. Olha, adeus. Fica bem. – Disse Jorge, desligando o
telemóvel. – Ah, estás aí. Como correu?
- Correu bem… Com quem estavas a falar, se puder saber?
- Claro que podes. Era com uma amiga. Bem, mais que uma
amiga. Tive de lhe contar que vou ser pai. Ela não aceitou lá muito bem, queria
que fizesse um aborto. Não gostei e desliguei.
- Uau, que feroz. Mas tu não vais ser pai…
- Vou, sim. Não te vou deixar desamparada.
- Não era preciso tanto…
- Era, sim. Eu vou te ajudar.
- Obrigada.
Jorge levou-a a casa. Entretanto, Joana, apesar do
desaparecimento de Leonel, havia recebido um novo automóvel, oferecido pela
seguradora de Leonel. O seu não tinha arranjo possível. Mas Joana andava poucas
vezes nele, com a sensação que algo de mal pudesse ocorrer.
Entretanto, além do cheiro, Joana começou a sentir-se
observada. Cortinas que se mexiam sozinhas, coisas que caiam sem razão nenhuma…
Até que, já ia no sexto mês de gravidez, levantou-se a meio da noite. Tinha de
ir à casa de banho, outra vez. Quando saiu, viu um cortinado a mexer-se
sozinho.
- Olha, Leonel. Se tens algo para dizer, diz logo. – Disse
Joana, sentindo-se corajosa.
Mas ela não estava preparada para o que vinha a seguir.
Nesse momento, ouviu-se uma voz clara.
- Tu vais sofrer… eu vou nascer outra vez…
E, nesse momento, apareceu à sua frente, atravessando-a.
Joana, completamente assustada, saiu de casa e telefonou a
Jorge, que foi logo ter com ela.
- Que se passa? Que aconteceu?
- É ele. Ele voltou. Ele não me larga.
- Ele quem? – Perguntou Jorge.
E joana contou-lhe o que tinha sucedido. Jorge, ainda
cético, convenceu-a a voltar para casa.
- Tu não entendes, aconteceu mesmo. Olha, o cortinado está
a mexer-se sozinho, outra vez. E a janela está fechada.
- Leonel, aparece, se és capaz. – Disse Jorge.
- Assassino… - Ouviu-se num sussurro.
Nesse momento, Jorge tornou-se crédulo.
- Tens de sair desta casa.
- Agora acreditas?
- Acredito. Vem para a minha casa. Faz uma mala pequena, de
manhã voltamos para buscar mais coisas.
- Ok.
Joana, passado uns dias, mudou-se de armas e bagagens para
casa de Jorge. Ele tinha uma casa, apesar de ainda ir dormir a casa dos seus
pais. Mas não a partir desse momento. A partir daí dedicou-se de corpo e alma a
Joana e à sua gravidez. Ele sempre estivera apaixonado por ela, mas nunca o
confessara. Joana foi cedendo a este amor e apaixonar-se, também.
O bebé nasceu, depois de um resto de gravidez calma. O seu
antigo senhorio alugou a casa, passado um tempo. Mas os novos inquilinos
praticamente fugiram da casa. Aparentemente, os cortinados ainda se mexiam
sozinhos. E ouviam-se sussurros…
quarta-feira, maio 09, 2018
O amor acontece - A vingança esquecida
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