Com um texto meu.
terça-feira, janeiro 16, 2018
A viagem
Estava a chover. Irina olhava para a rua. ‘Esta chuva nunca
mais passa!’, pensou. Irina tinha de ir às compras, mas não lhe apetecia com
aquele tempo. Não é que estivesse frio. Mas a chuva desagradava-lhe. Fazia-lhe
lembrar da sua terra, dos outonos frios e gelados da sua Ucrânia. Fugira de lá
antes da guerra estalar. Ainda tinha família lá. Estes dias chuvosos também lhe
faziam lembrar da sua família. Que raiva à Rússia. Porquê destruíram o sonho
idílico da Ucrânia? Família sua havia ficado para trás, na Crimeia. Parecia que
as guerras aí se manifestavam de século para século.
‘Bem, chega de chatices. Se na Ucrânia até com neve saía,
não é a chuva que me vai impedir de sair. Chega.’, pensou Irina. O seu marido
dormitava, tinha sido uma noite regada a vodka. Tudo para esquecer o que ficara
para trás. Pegou nas chaves do carro e saiu.
Ao chegar ao hipermercado, viu que havia poucos lugares.
‘Estes portugueses, só nos dias de chuva é que se lembram de ir ao híper.’.
Deixou o automóvel estacionado mais atrás e quase que correu até lá. Quase.
Pois os saltos não lhe permitiam correr muito. Chegada lá, viu uma compatriota.
- Olá, como estás? – Perguntou Irina.
- Estou bem, obrigada. – Respondeu a amiga.
Tiveram uma conversa banal. Falaram sobre a vida decorrente
e os problemas do seu país. Despediram-se e foram cada uma à sua vida. Irian
tinha vontade de fazer Pyrih. Era delicioso. Foi comprar os vários ingredientes
dessa receita. Precisava de algo que fizesse lembrar como a sua terra era
deliciosa.
Acabadas as compras, e já depois de pagar, foi para o
carro. O parque de estacionamento estava quase cheio, mas ainda se lembrava
onde estava o automóvel.
Chegada a casa, o marido já tinha acordado.
- Onde estiveste?
- Estive a comprar comida, para casa. Olha, comprei-te mais
uma garrafa de vodka, para bebermos um pouco. Não encontro uma loja da nossa
terra, desde que a outra fechou e voltou para a nossa amada Ucrânia.
- Menos mal. Vou só tomar um banho e volto já.
- Ok.
Irina foi arrumar as coisas e preparar-se para fazer o
jantar.
Após o jantar, guardou o que restava. Se estivesse na
Ucrânia, nada sobraria, pois, os seus dois filhos ajudavam a comer. No entanto,
ainda não tivera hipótese de os trazer para Portugal. Irina chorava às
escondidas, porque tinha imensa saudades deles. Mas com o despedimento do
marido e o salário baixo que auferia nas limpezas, não dava para os trazer. Já
pensara em tirar a equivalência para o curso que administrava na Ucrânia, mas
sempre lhe faltava o dinheiro. Era cientista e varria casas. Que grande
descida, pensava ela. No entanto, não lhe faltava animo. Ou não bebesse também
um pouco de vodka com o marido. Que falta lhe fazia a Horilka.
O fim de semana passou e Irina foi trabalhar para a casa de
uns senhores importantes. Não sabia o que faziam exatamente, mas também não lhe
interessada. Bastava receber ao fim do mês que já ficava agradecida. Mandava um
pouco do ordenado para os filhos, aguentando com algum sacrifício os dias que
passavam.
Sentia-se culpada. Culpada de não ter os filhos consigo, de
sustentar um homem que, desde que fora despedido, não saíra mais de casa e
bebia desalmamente. Às vezes pensava em voltar. Mas sabia que lá a vida era
mais difícil do que em Portugal.
Por enquanto permanecia em Portugal, depois logo se veria…
Irina arrumava as coisas de casa. Decidira partir. E o
marido ia com ela, pois parecia reticente em arranjar trabalho. Nada que não se
resolvesse na terra mãe. Já tinha contatado a família e eles garantiram-lhe
trabalho numa fabrica. Ganhavam menos em Portugal, mas, pelo menos, não estavam
isolados. Tinham a família por perto, e os filhos. Que saudade extrema dos
filhos.
O pouco que restava da indeminização de Irina, era para as
despesas da viagem. Ainda sobraria algum, para a alimentação. Iriam para casa
dos seus pais, pois a construção da sua casa tinha ficado embargada por falta
de pagamento. Maldita a hora em que reduziram pessoal naquela fábrica. Mas,
ironia do destino, abriram-na na sua terra natal, Odessa. Chovia
torrencialmente. ‘Neste país ora chove demais, ora aquece demais. Não há meio
termo. Que saudade de nossa terra, da neve.’, pensou Irina. Iam em abril, já
não deviam ver a neve. Mas, mesmo assim, sempre era mais suportável o tempo
nessa altura lá.
O marido, Mikhail, ajudou no final. Parecia que até ele
estava farto de ali estar. Achara-o estranho, mudo, mas, agora, parecia que o
ar da mudança o rejuvenescera. Até nem bebera vodka nem a chateara por não a
haver em casa. Saudades de casa…
A viagem fora longa, passaram por diversos países. Ao
chegarem à Hungria, decidiram descansar mais um pouco. O frio já se fazia
sentir aí. Como era agradável. Em breve estariam em casa. Decidiram comprar
algo para comer, já estavam fartos das sandes de posto de combustível. E eram
caras, ainda por cima. Ali não, comia-se à vontade.
Passado a Hungria, chegaram à sua amada Ucrânia. Como lhes
parecia diferente. Agora, era só descer até Odessa.
Como queriam chegar rápido, revezaram-se. Umas horas ia
Mikhail ao volante, enquanto Irina dormia. Noutras, ia Irina a conduzir. Chegam
lá num dia e meio. Cansados, mas conseguiram. Sem paragens, quase. Como era bom
estar de volta. Irina chegou à pequena casa que estava no final da rua e pôs-se
a gritar para a casa.
- Cristian, Marius! Cheguei! Chegamos!
Logo se ouviu um grande alvoroço vindo da casa.
- Mama! Papa! – Gritaram eles, entusiasmados.
Como era bom ouvir as suas vozes. Tinham mudado, crescido
desde as ultimas férias.
A vida não lhes era tão difícil assim, como imaginaram.
Conseguiram trabalho rápido, numa fabrica das redondezas. É certo que ganhavam
bem menos que em Portugal. Mas estavam na sua terra natal. Irina sentia culpa
de ter deixado os filhos para trás, mas agora estava tudo bem.
A egoísta
Lena era uma mulher, já feita, com muita inveja no coração.
Tinha inveja de tudo das suas amigas. Elas podiam comprar boas roupas, bons
perfumes. Lena não, tinha de desenrascar com o que tinha. Apesar de ter um
curso como elas, não o valorizava, pois não era o que ela pretendia
inicialmente. Não confessava a ninguém pois até ela tinha vergonha de o fazer.
Mas as amigas não se importavam com o seu aspeto um pouco mais ‘pobre’. Era o
interior, que pensavam conhecer, que admiravam. Mal elas sabiam…
- Boa tarde, Lena. – Disse Amélia.
- Boa tarde, Amélia. – Respondeu Lena.
- Então, que fazes?
- Olha, olhando as vitrines das lojas… Se tivesse dinheiro
para comprar aquela roupa…
- Olha, não te preocupes, estás bem assim. Queres sair logo
a noite?
- Não sei se dá, sou capaz de não ter roupa para usar.
- Está descansada, as tuas roupas são giríssimas. Ou queres
que te empreste algo?
Lena ficou pensativa.
- Olha, se não te importasses…
- Está bem, eu empresto. Tens mais ou menos o meu tamanho.
Já tenho a peça em vista. Depois passa lá por casa, à noite.
- Ok.
- E não te esqueças: manda toque antes de vir.
- Tudo bem. – Disse Lena.
Despediram-se e cada uma seguiu o seu caminho. Amélia não
compreendia porque Lena agia assim, se a sua roupa era tão gira. Espirrou.
Devia estar a gerar alguma constipação. Se continuasse assim, não sairia à
noite.
Lena sentiu-se feliz. Finalmente ia experimentar roupa de
marcas mais caras. Parece que já sentia o tecido na pele. Nem se apercebia de
quão vazia era. Ninguém se interessava por ela. Os pais, cansados, já não
faziam sacrifícios à sua custa. Lena vivia, praticamente, uma vida de
aparências. Mas não se importava. Endividava-se a comprar roupa mais ‘barata’,
mas nem se incomodava de abrir as cartas do crédito que lhe chegava a casa. ‘Um
dia serei rica.’, pensava ela. ‘Um dia não precisarei delas para nada, nem de
ninguém, só de mim mesma.’ Quão egoísta ela era. Pensava que, para subir na
vida, precisava de se vestir melhor.
Chegou a noite. Como combinado, mandou um toque a Amélia.
Já estava a sair com o carro, um Seat, dos mais baratos que havia (‘Maldita
sorte.’, pensou) quando recebeu uma mensagem de Amélia, dizendo que não ia sair
nem pretendia visitas. Estava doente. ‘Raios.’, pensou. ‘Que faço agora?’.
Pensou em ligar a outras amigas, mas elas também estavam fartas das conversas
de Lena dizer que não tinha roupa para vestir, que elas tinham tudo fino, etc.
Estava a perdê-las. Decidiu ir beber uma cerveja, sozinha, e voltar para casa.
E assim foi.
Não viu nenhuma das amigas dela no bar onde costumavam ir,
parecia que tinha tudo ficar em casa. Queria engatar, mas quem iria encantar
com aquelas roupas? Apenas os pobretanas. E ela não estava para se envolver com
alguém que poderia ter de sustentar, no futuro. Ela é que merecia ser
sustentada, não o inverso. Um ranhoso desses tentou aproximar-se dela. Ela
disse logo para ele se afastar, e foi-se embora. Foi quando viu, no
estacionamento, ele aproximar-se de um BMW alta cilindrada, que mudou de
opinião. Também ele mudara de opinião, pois levava uma bela loura pela mão. De
nada valia a Lena ir pedir para a levar a casa. Enfiou-se dentro do seu Seat
velho e partiu para casa. Chegada lá, foi se deitar.
No dia seguinte, acordou com as pancadas na porta. Parece
que já lá estavam a horas.
- Senhora Lena Cardoso? Abra a porta, se faz favor.
- Já vai… - Gritou Lena.
Abriu a porta. Admirou-se quando viu um homem acompanhado
de dois polícias.
- Viemos por parte do crédito. A senhora não efetua
pagamentos há três meses, estamos aqui para despejá-la. Esta casa é do banco
agora. Pegue nas suas coisas e saia.
- O quê? – Disse Lena.
Lena ficou em choque. Pediu que a deixassem vestir e
arranjar uma mala de roupa para levar. Não sabia para onde iria, talvez para
alguma amiga. Mas na rua não havia de ficar.
Saiu. Foi ter com Amélia. Lá chegada, contou-lhe o que se
tinha passado.
- Credo, rapariga. E que pensas fazer agora? – Perguntou
Amélia.
- Bem, se não te importasses…
- Não, está fora de questão. Não te quero a morar na minha
casa. Atenção, não te estou a abandonar, ainda. Mas porque não vais para casa
dos teus pais?
- Não sei se eles me recebem… - Mentiu Lena.
- Vai lá e faz as pazes com eles. Garanto-te que não te
deixaram na rua.
- Está bem… - Disse Lena.
Mesmo assim, após se ter despedido de Amélia, ligou a mais
algumas amigas, algumas nem as via desde a faculdade. Todas lhe disseram o
mesmo. Lamentavam a situação, mas não a queriam lá. Para tentar falar com os
pais. Lena, sem mais hipóteses, foi ter com os pais.
- Filha, há quanto tempo. Que é feito de ti? Porquê essa
mala? – Disse o pai.
- Olá pai. – Respondeu Lena.
E rapidamente o pôs a par do que se passava com ela. Os
pais acolheram-na, mas a mãe impôs uma contrapartida. A filha tinha de
contribuir para a casa. Era isso o que lhe tinha faltado, sentido de
responsabilidade. Lena não podia recusar. Feito o tratado, foram descansar,
pois já era tarde. Já tinham jantado, tinham discutido os termos do tratado ao
jantar.
O tempo passou-se e Lena parecia ter mudado. Mas continuava
sem efetuar os pagamentos do crédito, até que chegou uma carta a ameaçar
venderem em hasta publica a casa e conteúdo da casa dos pais. Só então eles se
aperceberam da gravidade da situação. Discutiram com Lena e obrigaram-na a ir
levantar o dinheiro, apesar de já ser de noite. A partir de então, eles
controlariam a vida de Lena, já que ela era parca em responsabilidades.
- E assim é. Vai te arranjar e ver da tua conta, já.
- Ok. – Respondeu Lena, sem ter como dar a volta à questão.
Lena foi ao multibanco mais próximo. Teve de ir a pé, pois
tinham lhe arrestado o automóvel. Estava escuro, a iluminação era fraca.
Parecia um cliché. Deu por algumas pessoas nas redondezas, pelo que não deveria
sentir medo. ‘Mas porquê esta inquietação?’, pensou Lena. Estava quase a
carregar no multibanco, quando se lembrou de telefonar aos pais, para irem ver
dela. Estava com medo. Mas eles não lhe ligaram, disseram para ela se
despachar. Lena assim fez. Retirou todo o dinheiro da conta e, quando ia a
caminho de casa, foi assaltada. Como uma desgraça nunca vem só, feriam-na no abdómem.
Deitada numa poça de sangue, telefonou à sua amiga Amélia, que nunca lhe chegou
a atender a chamada…
Lena não faleceu. Passaram um par de namorados que, ao
vê-la ali, chamou de imediato uma ambulância. Lena já estava no limite das suas
forças. Mas aquele casal nunca a deixou. Fizeram-na agarrar-se à vida. Só a
largaram quando os paramédicos chegaram. Eles fizeram tudo para a salvar,
falavam com ela enquanto a levavam para o hospital. Lena só pensava que merecia
aquilo, afinal era ela a culpada de toda a situação. Se não tivesse se atrasado
nos pagamentos, não teria de ir ao multibanco de noite.
Perguntaram-lhe pela família, quando chegou ao hospital.
Ela só conseguiu dizer: ‘Telemóvel…’, antes de desmaiar. Por sorte, tinha
ficado agarrada a ele, só o largando quando desmaiou. Viram os contactos dela e
pesquisaram pelos números dos pais. Quando os avisaram, eles ficaram alarmados.
Já tinham dado pela demora dela, mas nunca pensaram que tivesse sido vitima de
um assalto.
Chegaram ao hospital num ápice. Lá, foram informados do
estado de Lena.
- Ferida, mas estável. É tudo o que lhe posso dizer. –
Disse o médico.
Os pais de Lena tremiam, enervados. Mas nada podiam fazer.
Apenas podiam aguardar.
As horas passavam e nada. Até que o médico voltou.
- Senhor Doutor, como está a nossa filha? – Perguntou a mãe
de Lena.
- Bem, tenho boas notícias. Ela está salva.
- Ah, muito grato. – Disse o pai de Lena.
Os pais de Lena sentiam-se aliviados. Combinaram, entre si,
controlar a vida de Lena a partir de então. Não a voltariam a deixar sair
sozinha, fosse que hora fosse. A mãe estava na reforma, o que ajudava no plano.
A partir de então, a vida de Lena seria estritamente casa-trabalho-casa. Nada
mais. Lena nem imaginava a gaiola de ouro que estava a ser ‘construída’ para
si…
Passaram alguns dias e Lena foi autorizada a regressar a
casa, apesar de não poder se movimentar muito. Foi lá que foi informada dos
planos dos pais. Lena revoltou-se.
- Não, não me podem fazer isso. – Disse Lena.
- Podemos, sim. E vamos fazer. Sê coerente: tu não estás no
teu melhor. – Disse o pai.
- Não estou agora, mas vou melhorar. Vocês vão ver.
- Não, Lena. Já até avisamos o escritório de avogacia para
onde trabalhas. Nada de jantares de trabalho. Chega o final do dia, casa.
- Não, não podem fazer isso. Como o fizeram? Vocês estão a
destruir a minha vida.
- A tua vida é um castelo de cartas, está a desmoronar-se.
Sê simpática e obedece. De outra maneira, somos obrigados a largar-te. – Disse
o pai.
Lena não tinha escolha, teve de aceitar. Sentia-se presa,
não havia outra forma de o descrever, mas a sua vida, daí para a frente, seria
assim.
Em poucas semanas estava recuperada. Voltou ao trabalho,
onde lhe confrontaram sobre os seus erros.
- É uma sorte eu não a despedir. E tudo graças ao seu pai,
que teve o bom pensamento de nos visitar e avisar da sua situação. – Disse o
patrão.
- Peço desculpa… - Respondeu Lena.
- Desculpas aceites. Mas, a partir de agora, é como o seu
pai disse. Acabou o dia de trabalho, casa. Não a quero ver por aí. Francamente,
com o ordenado que recebe, como é capaz de contrair dívidas tão elevadas?
- Descontrolei-me…
- Pois não o faça mais, ou será despedida com justa causa.
Bom, agora que estamos conversados, ao trabalho.
Lena saiu do escritório do patrão e foi, primeiro, à casa
de banho, chorar. Andava muito sensível. Quase tinha morrido e parecia que
ninguém tinha interesse nisso. Tinha informado a polícia, mas ninguém deu muita
importância ao acontecimento. ‘Aconteceu, simplesmente’, disseram-lhe.
Semanas passaram e ela ‘distraía-se’ com os casos no
tribunal. O seu caso não avançava, e cada vez tinha menos importância. Estava
viva, o que era bom. As dividas iam sendo pagas com o seu dinheiro, mas pela
mão dos pais. As amigas até lhe tinham apoiado, quando ela se sentia mais só.
Mas cansadas das choradeiras de Lena por não ter dinheiro para roupa nova,
largaram-na também.
Lena estava só, mesmo acompanhada. Ia demorar décadas a
pagar os créditos, ia demorar anos até os pais terem confiança nela o
suficiente para a deixarem viver sozinha de novo. Os homens do escritório,
sabendo da história dela, nem lhe davam confiança. Apesar de ser das mais
lindas mulheres que tinham visto. Ninguém confiava nela, tão simples como isso.
E sem conhecer mais ninguém, além dos clientes, com quem nunca se iria
envolver, sentia-se triste. Assumia a sua culpa. Mas também atacava a família
por não a deixar viver a vida como gostava.
Até que, um dia, chegou um cliente novo. Queria se
divorciar. Lena, comovida com a história dele, deixou-se envolver demais.
Quando deu por si, passado umas semanas, apenas, já estava envolvida com ele.
Para não desconfiarem do relacionamento, pedia para sair mais cedo e chegava a
horas casa, depois de ter estado com ele. Até que, um dia, o pai ligou para
saber dela. Ao ser confrontado com horário ‘novo’ de Lena, irritou-se tanto que
esteve para destruir o telemóvel. Mas, graças à paciência da mãe de Lena,
controlou-se. Esperaram juntos pela chegada de Lena. Quando ela chegou,
confrontaram-na.
- Boa tarde, Lena. Isso é que são horas de chegar? – Disse
o pai.
- Como assim? Vim à hora que chego sempre, não me deixam
sair mais cedo… - Disse Lena, desconfiada.
- Lena, minha filha, não mintas! Não tenhas o descaramento
de fazer isso. Nós já sabemos que costumas sair mais cedo, com a justificação
que vens nos ajudar. Mentirosa, és uma vadia. – E deu-lhe uma chapada.
Aí, Lena descontrolou-se.
- Não, chega. Chega disto. Vocês não podem fazer-me isto.
Estou farta. Podem me ajudar a controlar as minhas contas, mas controlar a
minha vida como se ainda fosse uma criança, não. Admito, a culpa foi minha de
ter sido assaltada, devia ter seguido a minha intuição e evitado aquele
multibanco. Mas não tenho culpa de querer ter uma vida além de vocês. Ou vocês
me ouvem ou vou-me embora.
- E vais para aonde? Faz o que te mandamos e cala-te.
- Não me calo, chega. – E bateu com a porta da rua.
Liberdade. Correu dali o mais depressa que pode, evitando
um confronto maior com a família. Ia ter com o seu amado, segura que ele estava
livre. Mas, quando chegou ao seu local de trabalho, deu-se conta que ele não
vinha sozinho. Vinha acompanhado por uma bela mulher, ignorando-a. Lena sentiu
que o seu mundo desabava. Era certo que a sua relação era proibida,
extremamente física. Mas ela estava mesmo apaixonada por ele. Aparentemente,
ele não.
Lena foi a um café, sozinha. O que faria agora, sem
família, sem amor, sem dinheiro?...
Passou uma noite, passou duas… Dormir ao relento não era
tão difícil assim, pensou Lena. Estava numa rua mais recolhida, onde quase
ninguém a reconhecia. Não tinha para o trabalho nesses dois dias, como se ainda
o tivesse. Decerto já tinham sabido do caso com o cliente e tratado de pôr os
papeis para ela ir para a rua. Ninguém procurava por ela, também o sabia.
Porque o haviam de o fazer? Afinal, ela tinha saído de livre vontade de casa.
Mal sabia ela… Lena era alvo de uma busca pela cidade incessante pela parte dos
pais dela. No entanto, Lena havia se escondido tão bem, que não sabiam onde a
procurar. Ela vivia das esmolas, e do pouco comer que pessoas estranhas
bem-intencionadas lhe deixavam. Ao terceiro dia pareceu-lhe reconhecer uma
figura feminina que passada. Envergonhada, Lena escondeu-se. Mas não foi o
suficiente. Era Amélia.
- Lena? Lena, és tu? És tu, reconheço as tuas roupas. –
Disse Amélia, aproximando-se.
- Não te aproximes, estou suja.
- Estás assim porque queres. – Disse Amélia, continuando. –
Os teus pais procuram-te.
- E que querem eles? Uma boneca sem vida própria? É isso o
que me fazem sentir…
- Vá, não sejas assim. Anda para minha casa, arranjar-te e
comer algo. Eu empresto-te roupa minha. Mas, com a condição que irás falar com
os teus pais de seguida.
Lena pensou um pouco.
- Está bem… - Acabou por responder.
E Lena foi com Amélia. Chegadas ao apartamento de Amélia,
Lena pediu para tomar um banho. Não se sentia bem num lugar tão limpo. Amélia
assentiu e foi buscar uma roupa para Lena se mudar.
- Tudo certo, depois ligamos para o teu pai. Por enquanto,
vai te arranjar, enquanto preparo algo para comeres.
Depois disso tudo, Lena ligou aos pais dela, do telemóvel
de Amélia.
- Estou? – Respondeu o pai.
- Sim, pai? – Disse Lena. – Era só para te dizer que estou
bem, estou na casa de Amélia…
- Filha! Estávamos tão preocupados contigo… Quando nos
podemos ver? Desculpa pelas discussões, prometemos ajudar-te sem mais
problemas…
- Obrigada, pai. É mesmo do que eu preciso. – Disse Lena,
mais calma.
E deu-lhe a morada da casa de Amélia.
Passado meia hora, já lá estavam. Muito mais calmos,
pediram perdão pelas exigências que tinham feito da vida de Lena. Afinal, ela
já não era uma criança para a controlarem desse jeito. Lena perdoou-os. Foram
para casa, felizes. Lena telefonou para o trabalho. Aceitaram-na de volta,
desde que se emendasse. Lena aceitou as condições.
E tudo vai bem na vida, quando acaba bem…
sexta-feira, novembro 17, 2017
Ntinhina
Ntinhina era uma menina crioula de Guiné-Bissau. A sua mãe
trabalhava no campo e a vender o fruto da sua horta durante horas. Mesmo assim
não tinha o suficiente para ela e para os irmãos, tendo que mendigar. Ntinhina
sabia da lei nova de prender os meninos que fossem apanhados a mendigar. Mas
Ntinhina não tinha hipótese; era a sobrevivência dos seus irmãos que estava em
causa. O seu pai havia partido para Portugal em busca de vida melhor para
todos. Mas nunca mais tinha voltado ou mandado algo. A mãe tinha esperança que
ele apenas se estivesse a estabilizar, mas Ntinhina sabia que ele os tinha
abandonado. Não o queria dizer à mãe, simplesmente sabia-o.
Sentou-se na beira
de uma esquina e começou a pedir. Naquela rua movimentada só poucos davam
esmola. A maior parte eram pobres, como ela. E os poucos ricos que passavam, ou
assim pareciam, nada lhe davam. Pelo contrário, fingiam que não a viam. Alguns
dos mais humildes davam-lhe uns trocos. Era pouco, mas ajudava. Ntinhina
agradecia sempre. 'Deve-se agradecer a generosidade, sempre.', dizia a mãe.
Ntinhina obedecia.
Ntinhina estava
distraída, nem deu por eles chegarem. Estavam dois polícias a aproximar-se
dela. Quando se apercebeu, pegou nos trocos e levantou-se. Mas já era tarde.
Eles já estavam ao pé dela.
- Que estás a fazer, rapariga? Que fazes?
- Sim, que fazes? A pedir esmola? - Disse o outro polícia.
Ntinhina estava com
medo. Os polícias levaram-na para uma carrinha onde estavam mais crianças.
- Ntinhina, que fazes
aqui? - Perguntou Busnassum, um amigo.
- Fui apanhada... -
respondeu Ntinhina.
- Também eu...
Ntinhina e Busnassum
tremiam de medo. Não sabiam para onde iam. Só queriam voltar para as suas mães.
- Todos prontos. - Disse o polícia que tinha apanhado Ntinhina.
- Podem ir.
'Ir!? Ir para
onde?', pensou Ntinhina. Ela não queria ir para as ilhas. Como poderia escapar?
Quando deu por si,
estava a chegar ao porto. Estavam balsas à espera no porto. Ou assim pareciam.
Saíram da carrinha, à ordem do polícia, e entraram dentro das diferentes
balsas. Foi assim que Ntinhina e Busnassum se viram pela última vez. Ntinhina
foi para a ilha de Bolama. Chegou lá, abandonaram-na de imediato, a ela e a
mais duas crianças. Ela era a mais velha. Sozinhos, num sítio desconhecido.
Ninguém se aproximou deles. Ninguém perguntou nada. Ntinhina ordenou aos dois
rapazes que a seguissem, enquanto se orientava. Tinham fome e nada para comer.
Nem lhe tinham deixado os trocos. Tinham-nos roubado. Ntinhina não entendia a
língua que falavam. Não entendia nada. Mal sabia o que aconteceria.
Abandonados, já estava a ficar tarde. Ntinhina tentava encontrar um sítio para
dormirem, já que ninguém se parecia importar com eles. Encontrou um sítio perto
da floresta. Deitaram e adormeceram de imediato, de tão cansados que estavam.
Ntinhina apanhou algumas folhas de palma do chão e organizou-as, para fazer de
cama. Acordou os meninos e deitou-os sobre as folhas, tal como fazia com seus
irmãos. Eles eram a sua família, agora.
O dia veio e a fome e sede com ele. Os habitantes pareciam
não ligar, mas uma mulher, com pena deles, chamou-os com gestos. Eles correram
até ela.
- Água, água! - Pediram eles.
A mulher pareceu
entender eles e deu-lhes água. Pareciam que nunca tinham bebido nada melhor.
Depois, deu-lhes alguns bivalves e cabeças de peixes. Ntinhina e os dois
rapazes comeram tudo, derivado da fome que sentiam.
Dias passaram,
semanas até. Nada mudou naquela forma de viver. Cada vez apareciam mais
crianças, a ilha parecia demasiado pequena para eles. Deixou de haver
generosidade. Todos tinham de trabalhar por um pedaço de peixe em todo o dia.
As brigas eram frequentes. Os roubos, o pão de cada dia.
Até que um dia não
trouxeram mais ninguém. E no outro. E outro dia igual. Ntinhina perguntou a uma
pessoa da ilha que se passava.
O governo caiu. Vão
vos levar para vossa terra.
Ntinhina agradeceu a
informação. Mais que agradecida, estava extasiada. Finalmente ia voltar para
Bissau. Ia ver seus irmãos, sua mãe. Tudo tinha um fim. Aquele era o seu…
quarta-feira, junho 21, 2017
A despedida
Luísa chegou a casa. Estava desvastada. Tudo o que queria era fugir. Mais uma vez o namorado tinha feito um cena de ciúmes no meio da rua, obrigando-a a regressar a casa. Dirigiu-se à janela para respirar... Reparou no marco do outro lado da rua... E porque não partir mesmo?
Quando reparou, o namorado já tinha saído para ir ao café. Era a sua oportunidade. Decidiu fazer as malas e escrever uma carta. Ele ainda demorava, Luísa sabia-o. Este era o conteúdo da carta...:
Enquanto te temia tudo corria bem. Pelo menos para ti. Mas agora tudo acabou. Por este meio digo-te-o. As palavras que me dirigiste... Hei de me lembrar delas toda a minha vida. Ou, pelo menos, até ser feliz. Pois acredito que a felicidade regressará, seu reles cobarde. E ninguém me baterá mais. Agora que parto deixo-te estas palavras para que possas reconhecer os teus erros. Ela chegar-te-á muito depois de ter partido. Não me procures, pois não saberias onde me encontrar. Tudo o que quero é esquecer-te. Esquece-me também, se o puderes. Com todo o amor me despeço.
Luísa.
Terminada a carta, pegou nela, nas malas e dirigiu- ao marco do correio. Deixou lá a carta e chamou um taxi pelo telemóvel. Onde ia? Até um lugar longe daí. Devido ir até aos comboios, ir embora, simplesmente.
Ana Sophya Linares
Ana Sophya Linares
Corpo esquecido
Tudo o que queria era voltar atrás. Esquecer tudo. Mas, naquele turbilhão de sentimentos, não o conseguia fazer. Ele tinha feito mal a Mariana. Ela não o podia esquecer. E como o fazer? Estava cheia de nodoas negras. Mas por fim tinha-o confrontado. Podia lhe ter valido uma tareia, mas conseguiu-o.
Estava farta dele. Ele tinha traído Mariana vezes demais. E ainda chegava com aquele ar de machão, dizendo que a culpa era só dela, por não lhe dar o que queria e quando o queria. Mas, depois, mostrava-se arrependido das suas palavras e acabavam a fazer amor como nunca antes. Como ela se arrependia desses momentos de fraqueza. Como havia sido burra. Mas agora era o fim, tinha se livrado dele. Agarrara numa faca e atingira-o no pescoço, impossibilitando-o de falar. José tentara respirar, mas só saía sangue. E, por fim, caíra, morto. Mariana não podia estar mais feliz.
Ela não tinha muita força, mas iria dar tudo por tudo para cortar José por partes. Queria se desfazer dele e essa era a forma mais fácil que encontrara de o fazer. Os seus pais não podiam desconfiar nada. Apesar do filho ser um traste, defendiam-no sempre, dizendo que Mariana é que estava errada, que ela merecia as sovas. Achou, na sua mente, divertido. Agora que ele estava morto, podia brincar com eles. E que tal enviar uma orelha com o pírcingue dele, sangrenta? Mal podia esperar para ver a cara deles. Mas, por outro lado, era errado. As pistas podiam conduzir até si. Não, não faria isso. Apenas desmembrá-lo-ia e livrar-se-ia dele, em pedaços.
A noite já ia longa… tinha de o fazer rápido. Por sorte viviam numa casa terra, sem vizinhos. Nem queria imaginar como seria fazer aquele serviço sem essa particularidade. Teria de esperar pelo amanhecer, para se encontrar sozinha. Para aumentar a sua sorte, havia uma motosserra na garagem. Foi ver dela e começou a despedaçar o corpo, que, entretanto, tinha arrastado para a banheira. Não era nada de novo livrar-se de um corpo assim, mas era a primeira vez que o fazia.
Quando acabou, estava coberta de sangue. Apetecia-lhe tomar um banho, mas primeiro tinha de tirar de lá os pedaços de José. Foi buscar uns sacos pretos e foi aí que se apercebeu que começava a amanhecer. E o que faria agora, como levaria os restos de José até onde quer que fosse? Tinha de esperar pelo dia seguinte.
Nesse dia não iria trabalhar. E ligou também para a empresa de José, dizendo que ele estava constipado, não podendo ir trabalhar. Depois, descansou.
Acordou, já eram cinco da tarde. Ainda faltavam duas horas para anoitecer. Foi tomar um banho para limpar todo o sangue de cima de si. Tinha sangue em todo o lado: cabelo, corpo…
Por prevenção, deitara-se no sofá a dormir, com um saco de plástico rasgado que cobria todo o sofá, para não o sujar.
Depois do banho, foi fazer algo para comer. Tinha pouca carne em casa… Olhou para os sacos com os resto de José. E porque não… Tirou um pedaço do peito de José e pô-lo a fritar. Hum, nunca nada lhe tinha sabido tão bem. E que tal ficar com ele em casa, cozinhá-lo? Parecia-lhe uma boa ideia. Nem ela sabia o que a aguardava…
Ao fim de uns dias, ligaram-lhe. Ninguém sabia de José. Procuraram por ele nos bares habituais, mas não o encontraram. Se Mariana sabia dele. Ela respondera que não, desde aquele dia que não sabia nada dele. Mas o carro ainda se encontrava a porta dela, e foi isso que a tramou. A polícia, alarmada pelos pais de José, bateram-lhe a porta. E foi aí que viram o estado da casa e que viram os sacos pretos. Sem arca e um frigorifico pequeno, não dava para guardar tudo. E o sangue demorava a sair. Por isso a casa ainda se encontrava desorganizada.
Prenderam Mariana pelo crime atroz. Disseram que nunca tinham visto nada assim.
Foi julgada a porta fechada, pela atrocidade do crime. Apenas assistiram os pais de José. Até os seus pais haviam abandonado Mariana. Ninguém jamais a achou inocente, que apenas se havia defendido. Foi condenada a 25 anos numa instituição mental, pois, segundo as palavras do juiz: ‘Quem faz um crime destes, não bate bem da tola’.
Ana Sophya Linares
quinta-feira, junho 01, 2017
A batalha
Nesse dia Moreira se levantou, apressado. Tinha conhecido uma garota com quem havia dormido. Por sorte, a sua noiva não se encontrava na cidade e sim no interior, onde permanecia escondida das manifestações que assolavam a cidade. Moreira, como policial, tinha pouco tempo para se arranjar. Às sete ia substituir os colegas que, cansados, haviam tentado conter as manifestações durante a noite.
A moça começou a despertar.
- E aí, amor, já vai indo?
- Vou, e você também. A noite foi boa, mas está na hora de se ir. E não me chame de amor; foi só uma noite.
- Cara, que violência. Gato, você não quer repetir?
- Não, não quero. Tenho noiva, sabe. E vou repetir: foi só uma noite.
Então ela se levantou, danada, se vestiu e foi-se embora. Moreira ficou só, pensando na burrada que havia feito. Nunca mais iria se deitar com uma manifestante. Só causavam problemas. Quando olhou para a hora, tomou um duche rápido, se vestiu e tomou um café. De seguida, saiu. ‘De volta à batalha.’, pensou. Caraca, como estavam as ruas. Nem parecia um bairro comercial.
- Ai, mano, ‘tá de volta? – Perguntou Pires, um colega.
- É isso, cara. Vou render você. Pode ir.
- Grato, colega. A noite foi difícil, agora é sua vez. Vai fazer até quanto?
- Pelo menos umas 12 horas, não sei. O que durar.
- Muito bem. Vou deixar você, então. Arrasa, bro.
E aí Pires deixou a frente armada e se foi. Moreira ficou com os outros colegas, tentando defender a barricada. O dia já ia longo quando a manifestação pareceu se tornar pior. Portanto, tiveram que usar gás lacrimogénio para debandar com os ativistas. Mas isso só fez piorar a barricada, que agora era atingida por pedras. Sem pensar duas vezes, Moreira atirou com a arma de fogo. Nem viu se atingiu alguém; não era esse o seu propósito. Continuou batalhando até ficar sem bala. A plebe pareceu se afastar, deixando a barricada da Polícia Federal. Era noite quando foi dispensado. Podia ir para casa, já tinha feito muito. Tinha fome, mas nada estava aberto. Tinha pouca comida em casa, pelo que pensou em se aventurar pela outra ponta da cidade. Estava indo lá quando decidiu telefonar a sua noiva. Chamou, chamou… E nada. Não atendia. Preocupado, Moreira encostou o carro na via e telefonou para sua família.
- Alô, é você, Pedro?
- Sou eu, sim, mamãe. Sabe da Gabi? Estou tentado lhe ligar, mas ela não atende…
- Você não soube? Houve um colega seu, um policial, que andou disparou a arma de fogo contra os manifestantes. Aí, sua noiva estava lá.
- Mas estava lá, como? Eu disse para ela não ir. Que era perigoso, que ela não se devia manifestar. Olha a vergonha que vou passar com os meus colegas.
- A vergonha? Vergonha é policial armado disparando sobre uma manifestação indefesa.
- Indefesa não. Eles mandam pedras contra nós. Nos temos de nos defender.
- Não quero falar mais. Que vergonha. Vá ver da sua namorada.
E desligou. Moreira não quis admitir, mas a culpa havia sido sua. Ele é que tinha disparado contra a manifestação. Nesse momento ela podia estar morta! Ele foi rápido ao hospital mais perto da sua zona de atuação. Chegado lá, chamou pela enfermeira de serviço e perguntou pela Gabi Andrella. O informaram que ela estava sendo operada, que tinha sido atingida por uma bala por um policial armado. Que tinha sido ferida perto do coração, mas, em principio, iria se salvar.
- Graças a Deus. Mas não há nada que possa fazer?
- Pode se sentar e esperar. Mais logo lhe darei noticias.
- Obrigado. Assim farei.
E sentou-se. Com a preocupação tinha esquecido a fome. Nem uma maquina de comida existia naquele piso. Tinha de aguardar… Contatou o seu chefe avisando que não iria trabalhar até sua noiva se recuperar. O seu chefe compreendeu. Como lidar com o arrependimento? Como lidar com o sofrimento? Ele queria dizer que tinha sido ele a disparar, mas não tinha como. E, de certa forma, a culpa era de sua noiva. Ele avisara para ela não fazer nenhuma tolice. Sabia da sua opinião contra o estado. Mas ele avisara-a do perigo das manifestações. Não, a culpa era dela. Ela é que fizera isso a si própria. Ele não dispararia se soubesse que ela estava lá. Mas não, ela tinha de o contrariar. Como era teimosa. Perdido em seus pensamentos, nem deu pela vinda da enfermeira que lhe ia dar notícias sobre Gabi.
- Sr. Moreira? – Disse a enfermeira.
- Sim, sou eu. – Disse ele, levantando-se abruptamente.
- Sr. Moreira, sua noiva já foi operada. Correu tudo bem. Ela agora vai descansar. Seria melhor voltar daqui a umas horas, já é muito tarde. Só amanhã é que ela deve acordar.
- Tudo bem, eu vou. Manhã cedo estarei aqui, para a ver.
- Muito bem, pode ir. – Disse a enfermeira, virando costas.
Moreira se sentia mal. Nunca tinha atingido alguém que amava. Tinha sido um erro. Mas iria lhe contestar a razão. Que a culpa tinha sido dela. Foi no dia seguinte, mas disseram-lhe que estava fraca, que precisava de repousar mais, que não aconselhavam visitas. Moreira, resignado, aceitou e foi-se embora. Iria esperar uns dias. Enquanto isso, o melhor era voltar ao trabalho. Falou com o seu chefe que rapidamente o mandou voltar às ruas. As manifestações estavam maiores que nunca e todo o homem era necessário. Passado três dias, voltou a visitar a noiva. Os pais dela tinham-lhe telefonado do hospital, dizendo que Gabi já estava mais forte, que poderia receber visitas. Moreira saiu rápido do trabalho e foi para o hospital, avisando o chefe da ocorrência, que o liberou. Chegou ao hospital, quase desesperado.
- E aí, moça, pode me dizer se Gabi Andrella pode receber visitas?
- Espere um pouco que vou ver. Qual é seu nome, mesmo?
- Moreira, Pedro Moreira.
- É familiar?
- Não, sou noivo dela.
- Só com autorização da família você pode visitar ela.
- Mas eu tenho, foram eles que me ligaram.
- Então espera aí, que eu vou verificar.
E a enfermeira foi. Enquanto isso, Moreira observou o hospital. Era muito limpo, parecia um palácio. De construção antiga, estava muito bem conservado. Então ela voltou. Confirmou que podia visitar Gabi, mesmo estando fora do horário e não sendo família. Moreira nem quis ouvir mais nada e seguiu direto para o quarto de Gabi. Quando entrou, viu ela deitada na cama, sorrindo. Ele se aproximou.
- Como vai, meu amor? Você me deu um susto, sabia?
- Sério, cara? Meu amor, lhe peço perdão. Mas um cara atirou em mim…
- Eu sei, minha querida. Eu é que lhe peço perdão; nunca devia ter agido assim.
- Como assim? Que é que você quer dizer com isso?
Moreira fixou-a. Não sabia se havia de dizer a verdade ou não. Mas não podia esconder mais isso.
- Amor, peço perdão… Fui eu que atirei em você. ‘Cê não devia ter estado lá, se eu soubesse, nunca tinha atirado. Mas os policiais se viram em dificuldades, não pude virar costas no momento. ‘Cê sabe o que é aquilo.
- Sei, sei sim. É uma selvajaria. Todo mundo comete erro, mas atirar contra uma manifestação? De que é que você se estava defendendo? Dos gritos!?
- Amor, eles atiraram pedra na gente. Tive que defender, porra.
- Sai. Sai daqui. Não te quero ver mais. Sai, cafajeste.
Moreira nem lutou. Viu o desagrado na face de Gabi. Saiu sem pensar mais. Foi de volta para a luta. Seria a sua vida agora. Nada importava mais. Só a batalha, só a solidão…
- E aí, amor, já vai indo?
- Vou, e você também. A noite foi boa, mas está na hora de se ir. E não me chame de amor; foi só uma noite.
- Cara, que violência. Gato, você não quer repetir?
- Não, não quero. Tenho noiva, sabe. E vou repetir: foi só uma noite.
Então ela se levantou, danada, se vestiu e foi-se embora. Moreira ficou só, pensando na burrada que havia feito. Nunca mais iria se deitar com uma manifestante. Só causavam problemas. Quando olhou para a hora, tomou um duche rápido, se vestiu e tomou um café. De seguida, saiu. ‘De volta à batalha.’, pensou. Caraca, como estavam as ruas. Nem parecia um bairro comercial.
- Ai, mano, ‘tá de volta? – Perguntou Pires, um colega.
- É isso, cara. Vou render você. Pode ir.
- Grato, colega. A noite foi difícil, agora é sua vez. Vai fazer até quanto?
- Pelo menos umas 12 horas, não sei. O que durar.
- Muito bem. Vou deixar você, então. Arrasa, bro.
E aí Pires deixou a frente armada e se foi. Moreira ficou com os outros colegas, tentando defender a barricada. O dia já ia longo quando a manifestação pareceu se tornar pior. Portanto, tiveram que usar gás lacrimogénio para debandar com os ativistas. Mas isso só fez piorar a barricada, que agora era atingida por pedras. Sem pensar duas vezes, Moreira atirou com a arma de fogo. Nem viu se atingiu alguém; não era esse o seu propósito. Continuou batalhando até ficar sem bala. A plebe pareceu se afastar, deixando a barricada da Polícia Federal. Era noite quando foi dispensado. Podia ir para casa, já tinha feito muito. Tinha fome, mas nada estava aberto. Tinha pouca comida em casa, pelo que pensou em se aventurar pela outra ponta da cidade. Estava indo lá quando decidiu telefonar a sua noiva. Chamou, chamou… E nada. Não atendia. Preocupado, Moreira encostou o carro na via e telefonou para sua família.
- Alô, é você, Pedro?
- Sou eu, sim, mamãe. Sabe da Gabi? Estou tentado lhe ligar, mas ela não atende…
- Você não soube? Houve um colega seu, um policial, que andou disparou a arma de fogo contra os manifestantes. Aí, sua noiva estava lá.
- Mas estava lá, como? Eu disse para ela não ir. Que era perigoso, que ela não se devia manifestar. Olha a vergonha que vou passar com os meus colegas.
- A vergonha? Vergonha é policial armado disparando sobre uma manifestação indefesa.
- Indefesa não. Eles mandam pedras contra nós. Nos temos de nos defender.
- Não quero falar mais. Que vergonha. Vá ver da sua namorada.
E desligou. Moreira não quis admitir, mas a culpa havia sido sua. Ele é que tinha disparado contra a manifestação. Nesse momento ela podia estar morta! Ele foi rápido ao hospital mais perto da sua zona de atuação. Chegado lá, chamou pela enfermeira de serviço e perguntou pela Gabi Andrella. O informaram que ela estava sendo operada, que tinha sido atingida por uma bala por um policial armado. Que tinha sido ferida perto do coração, mas, em principio, iria se salvar.
- Graças a Deus. Mas não há nada que possa fazer?
- Pode se sentar e esperar. Mais logo lhe darei noticias.
- Obrigado. Assim farei.
E sentou-se. Com a preocupação tinha esquecido a fome. Nem uma maquina de comida existia naquele piso. Tinha de aguardar… Contatou o seu chefe avisando que não iria trabalhar até sua noiva se recuperar. O seu chefe compreendeu. Como lidar com o arrependimento? Como lidar com o sofrimento? Ele queria dizer que tinha sido ele a disparar, mas não tinha como. E, de certa forma, a culpa era de sua noiva. Ele avisara para ela não fazer nenhuma tolice. Sabia da sua opinião contra o estado. Mas ele avisara-a do perigo das manifestações. Não, a culpa era dela. Ela é que fizera isso a si própria. Ele não dispararia se soubesse que ela estava lá. Mas não, ela tinha de o contrariar. Como era teimosa. Perdido em seus pensamentos, nem deu pela vinda da enfermeira que lhe ia dar notícias sobre Gabi.
- Sr. Moreira? – Disse a enfermeira.
- Sim, sou eu. – Disse ele, levantando-se abruptamente.
- Sr. Moreira, sua noiva já foi operada. Correu tudo bem. Ela agora vai descansar. Seria melhor voltar daqui a umas horas, já é muito tarde. Só amanhã é que ela deve acordar.
- Tudo bem, eu vou. Manhã cedo estarei aqui, para a ver.
- Muito bem, pode ir. – Disse a enfermeira, virando costas.
Moreira se sentia mal. Nunca tinha atingido alguém que amava. Tinha sido um erro. Mas iria lhe contestar a razão. Que a culpa tinha sido dela. Foi no dia seguinte, mas disseram-lhe que estava fraca, que precisava de repousar mais, que não aconselhavam visitas. Moreira, resignado, aceitou e foi-se embora. Iria esperar uns dias. Enquanto isso, o melhor era voltar ao trabalho. Falou com o seu chefe que rapidamente o mandou voltar às ruas. As manifestações estavam maiores que nunca e todo o homem era necessário. Passado três dias, voltou a visitar a noiva. Os pais dela tinham-lhe telefonado do hospital, dizendo que Gabi já estava mais forte, que poderia receber visitas. Moreira saiu rápido do trabalho e foi para o hospital, avisando o chefe da ocorrência, que o liberou. Chegou ao hospital, quase desesperado.
- E aí, moça, pode me dizer se Gabi Andrella pode receber visitas?
- Espere um pouco que vou ver. Qual é seu nome, mesmo?
- Moreira, Pedro Moreira.
- É familiar?
- Não, sou noivo dela.
- Só com autorização da família você pode visitar ela.
- Mas eu tenho, foram eles que me ligaram.
- Então espera aí, que eu vou verificar.
E a enfermeira foi. Enquanto isso, Moreira observou o hospital. Era muito limpo, parecia um palácio. De construção antiga, estava muito bem conservado. Então ela voltou. Confirmou que podia visitar Gabi, mesmo estando fora do horário e não sendo família. Moreira nem quis ouvir mais nada e seguiu direto para o quarto de Gabi. Quando entrou, viu ela deitada na cama, sorrindo. Ele se aproximou.
- Como vai, meu amor? Você me deu um susto, sabia?
- Sério, cara? Meu amor, lhe peço perdão. Mas um cara atirou em mim…
- Eu sei, minha querida. Eu é que lhe peço perdão; nunca devia ter agido assim.
- Como assim? Que é que você quer dizer com isso?
Moreira fixou-a. Não sabia se havia de dizer a verdade ou não. Mas não podia esconder mais isso.
- Amor, peço perdão… Fui eu que atirei em você. ‘Cê não devia ter estado lá, se eu soubesse, nunca tinha atirado. Mas os policiais se viram em dificuldades, não pude virar costas no momento. ‘Cê sabe o que é aquilo.
- Sei, sei sim. É uma selvajaria. Todo mundo comete erro, mas atirar contra uma manifestação? De que é que você se estava defendendo? Dos gritos!?
- Amor, eles atiraram pedra na gente. Tive que defender, porra.
- Sai. Sai daqui. Não te quero ver mais. Sai, cafajeste.
Moreira nem lutou. Viu o desagrado na face de Gabi. Saiu sem pensar mais. Foi de volta para a luta. Seria a sua vida agora. Nada importava mais. Só a batalha, só a solidão…
quinta-feira, maio 18, 2017
O homem que tinha medo de morrer
Era uma vez um pobre rapaz a quem o avô tinha falecido. Tinha sido durante o sono.
- Coitado, podia acontecer a qualquer um. - Disse um vizinho.
Essas palavras impressionaram Ramiro, o neto. 'Qualquer um!?', pensou ele. 'Então eu também posso morrer, assim, a qualquer momento?'. Para tirar duvidas, bastava-lhe falar com os seus pais. Mas Ramiro, demasiado envergonhado para os seus nove anos, foi incapaz de verifica-lo.
Esse foi um dilema que lhe perseguiu até aos 14 anos, altura em que começou a transformar-se num homem. A partir daí acreditou que era incapaz de morrer, como qualquer outro rapaz na sua idade. Começou a perseguir raparigas e a namoriscar com elas, sem pensar no dia de amanhã. Tinha dezasseis anos quando apanhou o primeiro susto com uma rapariga. Por pouco ela estava grávida. Mas tinha sido só um susto, que lhe ensinou que a proteção é importante. Depois disso, foi sempre a seguir.
Interessava-lhe mais os carros que os estudos, pelo que, quando saiu, o pai pô-lo a trabalhar na sua oficina, na aldeia onde eles moravam. Havia pouco movimento, Ramiro sentia falta dos dias de escola.
- Se queres trabalhar, ficas aqui. Se queres festa, então tens de estudar. - Disse-lhe o pai.
Ramiro ficou a pensar na proposta. Para estudar precisava de melhorar as notas. Podia trabalhar de dia e estudar à noite, sem desistir de nada. Depois, na universidade desenrascava-se. E foi assim que, aos dezanove anos, Ramiro voltou à escola. Voltou a ver os amigos de sempre, que tinham chumbado, e que faziam melhorias de nota, tal como ele. Aos vinte e três conseguiu ir para a universidade. A vida corria-lhe bem, apesar das dificuldades. Não passava fome, mas era-lhe difícil sobrar-lhe dinheiro para festas, depois de contas pagas. Os pais não facilitavam. Só lhe davam o estritamente necessário. E o emprego não estava assim tão fácil de arranjar, pois ele tinha pouca experiência, além de ter trabalhado na oficina.
Foi aos trinta que acabou o curso. Com muita dificuldade, conseguiu. Ramiro sentia-se feliz. Já tinha uma linda companheira, planeavam casar daí a alguns anos e constituir família. Foi quando começou. Ramiro tinha dificuldades em dormir, advindo do trabalho imenso que fazia, como professor. Começou com pouco. Mas a sua companheira reparou que a sua falta de sono era fora do normal. Ele chegava a estar acordado até às três da manhã e a acordar às seis, três horas depois, sem qualquer vestígio de sono.
- Amor, isso não é normal. - Disse Telma, preocupada. - Devias consultar um médico.
Ramiro desvalorizou, dizendo que era um hábito que tinha apanhado da universidade, que não era nada com que se devesse preocupar. Mas tanto que a namorada insistiu que foi a um medico. O médico indicou que isso não era normal. Que devia tomar medicação para, pelo menos, dormir 8 horas por noite. Ramiro achou um exagero, mas decidiu aceitar a medicação. Foi o seu maior erro. Foi quando os seus medos de infância voltaram.
Ramiro sonhava muito, quando começou a tomar a medicação. Sonhava que morria durante o sono. Mas, como tomava a medicação, não conseguia acordar. Quando finalmente o fazia, era de manhã. Uma vez sonhou que morria a dormir, tal como o seu avô. Viu o seu funeral, as pessoas chorando por ele. Ramiro não podia fazer nada, apenas observar. Viu como eram atravessados pela dor, para depois esta desaparecer. Como seguiam as suas vidas e como ele ia ficando cada vez mais só, na sua cova. Ninguém o visitava mais. Nem seus pais nem sua namorada. Estava só. E, então, acordava. Estava suado. Teve esse sonho noites seguidas, fazendo-o ter medo de voltar a adormecer.
Deixou de tomar a medicação. Voltou a dormir apenas três horas por noite e acordava sempre sobressaltado, com a sensação que estava para morrer. A principio a namorada aceitou. Mas Ramiro foi ficando cada vez mais estranho. Não dizia coisa com coisa, dizia que via coisas onde elas não estavam, irritava-se com qualquer coisas, ficou mais carente, com medo de perder todos. A namorada deixou-o. Os amigos foram abandonando-o. A família foi lhe deixando de falar. Ficou cada vez mais só, até apenas ter o trabalho. E até daí foi despedido, pois começou a ensinar aos seus alunos matéria não escolar.
Fez estudos sobre a possibilidade de vida além da morte e falava disso nas classes. Os alunos, assustados, contaram à diretora de turma, que fez queixa contra Ramiro. Não tinha mais vida. Impedido de lecionar, pouco lhe restava a fazer naquela cidade. Mas não podia voltar para a terra dos pais, aí não tinha nada à sua espera.
Começou a ter medo de dormir. Tinha a sensação que ia morrer. Recusa-se a dormir, comia pouco. Andava de um lado para o outro no apartamento, falando consigo mesmo. Ramiro começou a enlouquecer, pouco cuidava de si, higienicamente. Até que ela veio. Sentiu que ela vinha, tinha a certeza. A sua ex-namorada, Telma. Vinha para buscar umas coisas que se tinha esquecido. Assustou-se com o estado de Ramiro e da sua casa.
- Fizeste bem em ter vindo. - Disse Ramiro. - Estou prestes a perder a casa.
- Mas... Que se passou contigo? Porque está isto assim?
- Fui despedido. Ainda não saí de casa para tratar do desemprego, à duas semanas. Não consigo sair. Amo-te, fica comigo.
- Desculpa, mas não, tens de me deixar ir. Adeus.
E bateu com a porta, sem levar nada seu. Ramiro sentiu-se desolado. Já não sabia o que fazer. Até que viu uma sombra na parede que lhe entregava uma faca. Ele pegou na faca que estava na mesa da cozinha, à sua frente, e fez o gesto da sombra. Ele matou-se, cortando a garganta. Agora, como espírito, nunca foi mais só...
- Coitado, podia acontecer a qualquer um. - Disse um vizinho.
Essas palavras impressionaram Ramiro, o neto. 'Qualquer um!?', pensou ele. 'Então eu também posso morrer, assim, a qualquer momento?'. Para tirar duvidas, bastava-lhe falar com os seus pais. Mas Ramiro, demasiado envergonhado para os seus nove anos, foi incapaz de verifica-lo.
Esse foi um dilema que lhe perseguiu até aos 14 anos, altura em que começou a transformar-se num homem. A partir daí acreditou que era incapaz de morrer, como qualquer outro rapaz na sua idade. Começou a perseguir raparigas e a namoriscar com elas, sem pensar no dia de amanhã. Tinha dezasseis anos quando apanhou o primeiro susto com uma rapariga. Por pouco ela estava grávida. Mas tinha sido só um susto, que lhe ensinou que a proteção é importante. Depois disso, foi sempre a seguir.
Interessava-lhe mais os carros que os estudos, pelo que, quando saiu, o pai pô-lo a trabalhar na sua oficina, na aldeia onde eles moravam. Havia pouco movimento, Ramiro sentia falta dos dias de escola.
- Se queres trabalhar, ficas aqui. Se queres festa, então tens de estudar. - Disse-lhe o pai.
Ramiro ficou a pensar na proposta. Para estudar precisava de melhorar as notas. Podia trabalhar de dia e estudar à noite, sem desistir de nada. Depois, na universidade desenrascava-se. E foi assim que, aos dezanove anos, Ramiro voltou à escola. Voltou a ver os amigos de sempre, que tinham chumbado, e que faziam melhorias de nota, tal como ele. Aos vinte e três conseguiu ir para a universidade. A vida corria-lhe bem, apesar das dificuldades. Não passava fome, mas era-lhe difícil sobrar-lhe dinheiro para festas, depois de contas pagas. Os pais não facilitavam. Só lhe davam o estritamente necessário. E o emprego não estava assim tão fácil de arranjar, pois ele tinha pouca experiência, além de ter trabalhado na oficina.
Foi aos trinta que acabou o curso. Com muita dificuldade, conseguiu. Ramiro sentia-se feliz. Já tinha uma linda companheira, planeavam casar daí a alguns anos e constituir família. Foi quando começou. Ramiro tinha dificuldades em dormir, advindo do trabalho imenso que fazia, como professor. Começou com pouco. Mas a sua companheira reparou que a sua falta de sono era fora do normal. Ele chegava a estar acordado até às três da manhã e a acordar às seis, três horas depois, sem qualquer vestígio de sono.
- Amor, isso não é normal. - Disse Telma, preocupada. - Devias consultar um médico.
Ramiro desvalorizou, dizendo que era um hábito que tinha apanhado da universidade, que não era nada com que se devesse preocupar. Mas tanto que a namorada insistiu que foi a um medico. O médico indicou que isso não era normal. Que devia tomar medicação para, pelo menos, dormir 8 horas por noite. Ramiro achou um exagero, mas decidiu aceitar a medicação. Foi o seu maior erro. Foi quando os seus medos de infância voltaram.
Ramiro sonhava muito, quando começou a tomar a medicação. Sonhava que morria durante o sono. Mas, como tomava a medicação, não conseguia acordar. Quando finalmente o fazia, era de manhã. Uma vez sonhou que morria a dormir, tal como o seu avô. Viu o seu funeral, as pessoas chorando por ele. Ramiro não podia fazer nada, apenas observar. Viu como eram atravessados pela dor, para depois esta desaparecer. Como seguiam as suas vidas e como ele ia ficando cada vez mais só, na sua cova. Ninguém o visitava mais. Nem seus pais nem sua namorada. Estava só. E, então, acordava. Estava suado. Teve esse sonho noites seguidas, fazendo-o ter medo de voltar a adormecer.
Deixou de tomar a medicação. Voltou a dormir apenas três horas por noite e acordava sempre sobressaltado, com a sensação que estava para morrer. A principio a namorada aceitou. Mas Ramiro foi ficando cada vez mais estranho. Não dizia coisa com coisa, dizia que via coisas onde elas não estavam, irritava-se com qualquer coisas, ficou mais carente, com medo de perder todos. A namorada deixou-o. Os amigos foram abandonando-o. A família foi lhe deixando de falar. Ficou cada vez mais só, até apenas ter o trabalho. E até daí foi despedido, pois começou a ensinar aos seus alunos matéria não escolar.
Fez estudos sobre a possibilidade de vida além da morte e falava disso nas classes. Os alunos, assustados, contaram à diretora de turma, que fez queixa contra Ramiro. Não tinha mais vida. Impedido de lecionar, pouco lhe restava a fazer naquela cidade. Mas não podia voltar para a terra dos pais, aí não tinha nada à sua espera.
Começou a ter medo de dormir. Tinha a sensação que ia morrer. Recusa-se a dormir, comia pouco. Andava de um lado para o outro no apartamento, falando consigo mesmo. Ramiro começou a enlouquecer, pouco cuidava de si, higienicamente. Até que ela veio. Sentiu que ela vinha, tinha a certeza. A sua ex-namorada, Telma. Vinha para buscar umas coisas que se tinha esquecido. Assustou-se com o estado de Ramiro e da sua casa.
- Fizeste bem em ter vindo. - Disse Ramiro. - Estou prestes a perder a casa.
- Mas... Que se passou contigo? Porque está isto assim?
- Fui despedido. Ainda não saí de casa para tratar do desemprego, à duas semanas. Não consigo sair. Amo-te, fica comigo.
- Desculpa, mas não, tens de me deixar ir. Adeus.
E bateu com a porta, sem levar nada seu. Ramiro sentiu-se desolado. Já não sabia o que fazer. Até que viu uma sombra na parede que lhe entregava uma faca. Ele pegou na faca que estava na mesa da cozinha, à sua frente, e fez o gesto da sombra. Ele matou-se, cortando a garganta. Agora, como espírito, nunca foi mais só...
As luzes
Havia luz no céu. Milhares de luzes, não só provocadas pelas estrelas. As pessoas lançavam fogo-de artifício pelo céu. Camila observava-os, com bastante atenção.
- Que lindo, não é, amor? - Perguntou Camila para Bela.
- Sim, querida, é lindo.
Abraçaram-se. Naquela noite, nada ia ser escuro. Iriam passa-la a ver as luzes. Era tudo tão estranho desde que Camila e Bela tinham sido expulsas de casa. E tudo por um amor diferente. Eram amigas de infância, conheciam-se bem. Nada tinha sido por acaso. Desde novas sabiam que eram diferentes, contavam tudo uma à outra. Mas foi um escândalo quando contaram a família, pior quando souberam que eram as duas amigas e namoradas. Os seus pais não tiveram duvidas quanto a expulsá-las de casa. De repente, viram-se na rua, sem ninguém para as ajudar para sair dessa realidade. Os primeiros tempos custaram, mas, a pouco e pouco, habituaram-se. Não tinham escolha. O que vale é que ainda era verão. Depois, no inverno, logo se veria...
Levantaram-se e foram andar, sem saber onde iam dormir nessa noite. A noite estava fresca, o tempo começava a mudar. Mas tinham de aguentar, não tinham saída. A principio, parecia-lhes estranho ter de pedir esmola. Mas, depois, tiveram que se habituar. Roubar é que não, isso nunca. Podiam ser sem-abrigo, mas tinham a sua dignidade. Outros já lhe tinham dito para ir aos escritórios da revista Cais, mas elas tinham muita vergonha, diziam que não se encontravam em condições. Tinham vergonha, simplesmente. Vergonha do que eram. Todos os amigos as tinham abandonado. Ainda só tinham 16 anos, pelo que não podiam encontrar trabalho. E, possivelmente, também a Cais não as ajudaria.
Ninguém perguntara por elas, elas sabiam. Se o fizessem, já tinham sido encontradas. Mas não, ninguém queria saber delas. Tinham ido para Lisboa para se afastarem de tudo e de todos. Ninguém ligava, mesmo. Com dezasseis anos acredita-se que tudo é possível. E, para elas, era possível viver o seu amor. Mesmo com dificuldades. Voltar a casa não era opção; sabiam bem o que lhes esperava. Só lhes restava andar... E guardar esperança.
Uma noite, enquanto caminhavam de mãos dadas por uma rua escura, apaixonadas e sem senso comum, foram atacadas. Fizeram-lhes de tudo... Enquanto sangravam naquele chão duro, olhavam-se e perguntavam-se se alguém sentiria falta delas... Aparentemente, alguém tinha dado por falta delas. Depois de terem sido atacadas, tiveram de dar entrada no hospital, onde verificaram que as duas estavam dadas como desaparecidas. Quando os seus familiares se viram a sós com elas, no hospital, não pareciam tão animados quanto isso.
- Isso de tu desapareceres para Lisboa. - Disse o pai de Camila para ela, observando se alguém ouvia. - Foi a melhor coisa que fizeste. Mas tinha que dar merda, tu tinhas de te magoar. Agora não há volta a dar. Vais voltar para casa. E nada de conversas de namoros. Ali a Bela também vai para casa. Para casa dos avós, longe da nossa terra. E a conversa acabou aqui.
- Mas... - Tentou dizer Camila.
- Mas nada. Acabou.
Camila sentiu-se desesperar. Como estaria Bela? Estava num quarto diferente do seu. Mas não as deixavam levantar-se, para se verem uma à outra. Ainda tinham as feridas recentes do ataque às duas. Como aquilo se tinha passado? Mais tarde, haviam os pais por confessar, tinham dado conta do seu desaparecimento pressionados pelos outros habitantes da terra deles. Fartos da 'perseguição', acabaram por ir a GNR.
- E tudo por tua culpa e daquela desvairada da Bela. Falta de atenção, é o que vocês têm. - Disse-lhe o pai.
Camila só chorava, depois das visitas dos pais. Mas sempre às escondidas. Nunca as enfermeiras se deram conta. No dia da saída do hospital, Camila e Bela viram-se à distância. Mal conseguiram dizer adeus, já os pais delas as enfiavam nos carros. E como seguiria a história a seguir daqui? Camila e Bela sentiam-se mais sem rumo do que antes, quando estavam juntas na rua. Terminaria o amor aqui?
- Que lindo, não é, amor? - Perguntou Camila para Bela.
- Sim, querida, é lindo.
Abraçaram-se. Naquela noite, nada ia ser escuro. Iriam passa-la a ver as luzes. Era tudo tão estranho desde que Camila e Bela tinham sido expulsas de casa. E tudo por um amor diferente. Eram amigas de infância, conheciam-se bem. Nada tinha sido por acaso. Desde novas sabiam que eram diferentes, contavam tudo uma à outra. Mas foi um escândalo quando contaram a família, pior quando souberam que eram as duas amigas e namoradas. Os seus pais não tiveram duvidas quanto a expulsá-las de casa. De repente, viram-se na rua, sem ninguém para as ajudar para sair dessa realidade. Os primeiros tempos custaram, mas, a pouco e pouco, habituaram-se. Não tinham escolha. O que vale é que ainda era verão. Depois, no inverno, logo se veria...
Levantaram-se e foram andar, sem saber onde iam dormir nessa noite. A noite estava fresca, o tempo começava a mudar. Mas tinham de aguentar, não tinham saída. A principio, parecia-lhes estranho ter de pedir esmola. Mas, depois, tiveram que se habituar. Roubar é que não, isso nunca. Podiam ser sem-abrigo, mas tinham a sua dignidade. Outros já lhe tinham dito para ir aos escritórios da revista Cais, mas elas tinham muita vergonha, diziam que não se encontravam em condições. Tinham vergonha, simplesmente. Vergonha do que eram. Todos os amigos as tinham abandonado. Ainda só tinham 16 anos, pelo que não podiam encontrar trabalho. E, possivelmente, também a Cais não as ajudaria.
Ninguém perguntara por elas, elas sabiam. Se o fizessem, já tinham sido encontradas. Mas não, ninguém queria saber delas. Tinham ido para Lisboa para se afastarem de tudo e de todos. Ninguém ligava, mesmo. Com dezasseis anos acredita-se que tudo é possível. E, para elas, era possível viver o seu amor. Mesmo com dificuldades. Voltar a casa não era opção; sabiam bem o que lhes esperava. Só lhes restava andar... E guardar esperança.
Uma noite, enquanto caminhavam de mãos dadas por uma rua escura, apaixonadas e sem senso comum, foram atacadas. Fizeram-lhes de tudo... Enquanto sangravam naquele chão duro, olhavam-se e perguntavam-se se alguém sentiria falta delas... Aparentemente, alguém tinha dado por falta delas. Depois de terem sido atacadas, tiveram de dar entrada no hospital, onde verificaram que as duas estavam dadas como desaparecidas. Quando os seus familiares se viram a sós com elas, no hospital, não pareciam tão animados quanto isso.
- Isso de tu desapareceres para Lisboa. - Disse o pai de Camila para ela, observando se alguém ouvia. - Foi a melhor coisa que fizeste. Mas tinha que dar merda, tu tinhas de te magoar. Agora não há volta a dar. Vais voltar para casa. E nada de conversas de namoros. Ali a Bela também vai para casa. Para casa dos avós, longe da nossa terra. E a conversa acabou aqui.
- Mas... - Tentou dizer Camila.
- Mas nada. Acabou.
Camila sentiu-se desesperar. Como estaria Bela? Estava num quarto diferente do seu. Mas não as deixavam levantar-se, para se verem uma à outra. Ainda tinham as feridas recentes do ataque às duas. Como aquilo se tinha passado? Mais tarde, haviam os pais por confessar, tinham dado conta do seu desaparecimento pressionados pelos outros habitantes da terra deles. Fartos da 'perseguição', acabaram por ir a GNR.
- E tudo por tua culpa e daquela desvairada da Bela. Falta de atenção, é o que vocês têm. - Disse-lhe o pai.
Camila só chorava, depois das visitas dos pais. Mas sempre às escondidas. Nunca as enfermeiras se deram conta. No dia da saída do hospital, Camila e Bela viram-se à distância. Mal conseguiram dizer adeus, já os pais delas as enfiavam nos carros. E como seguiria a história a seguir daqui? Camila e Bela sentiam-se mais sem rumo do que antes, quando estavam juntas na rua. Terminaria o amor aqui?
Tragédia no Verão
Quando me levantei, estava tudo acabado. Bastou um gesto meu para ele o perceber. Sim, é verdade. Tinha-o torturado com mensagens atrás de mensagens. Tinha quase a certeza que ele me traía. E agora, a confirmação. Nem foi preciso dizer mais nada, levantei-me e saí. Era o fim. Diogo bem podia gritar que estava arrependido, que me queria de volta. No entanto, isso não aconteceria. Continuei a andar, como se nada fosse. Já era de noite quando chegara a casa. Nem me lembrava por onde tinha ido, para demorar tanto. No entanto, ele seguira-me sempre, não o conseguira cansar ou, sequer, despistar. Estava rouco, de tanto gritar. E o telemóvel não parara de tocar. Devia ser ela. Ele tinha me confessado que lhe tinha contado que ia me dizer a verdade sobre eles. Só eu não o sabia, aparentemente. Todos os amigos o sabiam e se riam nas minhas costas. Cobardes, é o que eles eram.
Cansada de Diogo, parei para falar com ele.
- Olha, eu não quero falar contigo. Acabou, entendes?
- Desculpa... Mas eu amo-te, não quero que vás.
- Essa decisão tomaste-a tu quando me decidiste trair. E vê se ligas a tua amiga, ela deve estar farta de ligar.
- Como sabes que é ela?
- Desconfiei. Para te ligar tanto. Tu não és de confiança nem nunca serás. Temos de ter sempre um olho em ti para ver se não nos trais. Com certeza prometeste-lhe namoro, senão não ligava tanto.
- Como sabes tanto? Com quem andaste a falar?
- Simplesmente contigo. E basta-me. Adeus, Diogo. Acabou tudo. Não restou nem uma amizade. Vai e aproveita a vida.
- Não podes ir assim...
- Mas vou. Mas vou! Porque aqui não há mais nada. - Disse, pondo a mão no coração. - Aqui acabou tudo.
- Desculpa-me. Perdoa-me...
- Não, Diogo, isso não o farei. Desculpa, mas tenho de ir.
Deixei-o só, chorando. A mim também me apetecia chorar, mas não o fiz. Com as forças que me restaram, fiz-me forte e entrei em casa. Fechei a porta na cara dele. Assim que o fiz, caí prostrada no chão, encostada à porta. Senti que ele fez o mesmo. Não, não ia espreitar pela janela para ter a certeza. Levantei-me e fui pôr um pouco de música, para me distrair. Cantarolando, fui à cozinha e lavei as mãos. Era hora de fazer o jantar. Nem sabia o que fazer. Não tinha fome alguma. No entanto, não me deixei levar pela tristeza. Ia cozinhar, sim. Nem que fosse uns ovos mexidos. Perfeito, era isso mesmo. Fui buscar uns dois ovos e pus mãos ao trabalho.
Após o jantar, levantei-me e fui espreitar pela janela. Menos mal, ele já não estava lá. Parecia-me ter ouvido ele a falar ao telemóvel, próximo da porta. E, depois, nada. Tinha partido. Finalmente, já não aturava mais Diogo. Parecia que todas as minhas inseguranças tinham partido. Estava livre, enfim. Livre de medos e pesadelos. Não me apetecia fazer mais nada, por isso fui dormir. Lavei os dentes, mudei para pijama e deitei-me, depois de passar um creme pela cara. Tentei conciliar o sono com musica, mas não estava a dar resultado. Por isso, retirei os auscultadores e desliguei a musica. Tentei não pensar nele e simplesmente dormir. Não conseguia. Parecia que todas as minhas inseguranças me atacavam agora. Onde estaria ele? Estaria rindo da minha cara? Teria aquele 'espetáculo' sido só um teatro da parte dele? Não, não podia continuar assim. Liguei novamente a musica e pus os fones nos ouvidos, para me distrair.
Acordei na manhã seguida com uma horrível dor de cabeça. Aparentemente a musica resultara, com efeitos nefastos. Eram nove da manhã. Ainda bem que era sábado, senão estaria atrasada para o trabalho. Levantei-me, como todas as manhãs, com a diferença de sentir um vazio no meu coração. Fui tomar banho e arranjar-me, para, de seguida, tomar o pequeno-almoço.
Depois de o ter feito, tomei dois comprimidos de benuron de 500ml com um copo de água. A dor de cabeça estava a matar-me, parecia que tinha bebido vodka até cair. Mas não, tinha sido apenas a musica. Apenas a musica a dar-me cabo da cabeça.
Hoje não me apetecia sair. No entanto, iria fazê-lo. Não me iria prender à casa, chorando por um vazio que nunca devia ter sido preenchido. Chorando por quem não merecia...
Com a dor de cabeça mal conseguia levantar a cabeça e olhar ao sol. Por isso não vi quando o carro apareceu. Quando ele chegou. Apenas pude sentir a dor. A dor de alguém me atropelando, propositadamente. Ninguém na rua fez nada, enquanto ele me levantava e me levava para o carro. Ouvi ele gritar que ia me levar a um hospital, tinha me atropelado sem querer. Eu tentei falar, sem sucesso. Mal me conseguia mover. E tinha tantas dores. Via sangue a escorrer pelas minhas pernas abaixo. Pouco conseguia ver, pois só me apetecia adormecer.
- Não durmas! - Disse Diogo. - Tenho planos para ti...
- Leva-me ao hospital... - Disse eu, com voz fraca.
- Hã, o que é que disseste? Não interessa. O que importa é que te tenho aqui comigo. E nunca serás de mais ninguém.
Nesse momento senti medo. O que é que ele queria dizer com isso? O que é que ele me iria fazer? Mas não conseguia fazer nada. Ouvi alguém bater no carro com força, tentando me ajudar. Mas eu não conseguia mover as pernas, estavam partidas.
- Abre esta porta! - Disse alguém. - Abre ou chamo a polícia!
Alguém me tentava ajudar. Diogo, sentindo-se encurralado pelas pessoas que se começavam a amontoar, parou o carro e abriu as portas. De imediato me tiraram de lá e puxaram Diogo para fora do carro pelo colarinho.
- Como está? Consegue falar? Já chamei a ambulância, ela vem a caminho. - Ouvi uma senhora a dizer.
Do outro lado, não muito longe, ouvi um homem jovem a gritar com Diogo.
- ... Tu vais pagá-las, seu filho da mãe. Atropelas uma pessoa e ainda a tentas raptar!? Mas qual hospital qual quê! Tu vinhas é fazer-lhe mal...
Não consegui ouvir mais, pois penso que desmaiei. Acordei estava no hospital. Vi um medico a observar-me atentamente, até que falou comigo.
- Bom dia, Caetana. Eu sou o Dr. Magno. Está no hospital de St. Maria. Sente-se bem?
- Sim... que dia é hoje? - Perguntei, suspeitando que tinha passado mais tempo a dormir que o normal.
- Hoje é dia vinte e três de junho. Passou três dias em coma. Estou a verificar se está tudo bem consigo. Não se tente levantar. Uma das suas pernas está engessada. Partiu um osso, mas estamos a recuperá-lo. Não pode fazer esforço algum.
- Obrigada, Dr. Magno. Acho que quero descansar...
- Muito bem, vou deixa-la só. Daqui a uma hora uma enfermeira voltará para ver se está acordada e dar-lhe o pequeno-almoço. A nível facial nada se passou. Foi só mesmo as pernas; e teve muita sorte.
- Obrigada... - Disse, adormecendo.
Desse dia lembro pouco, tal como nos dias seguintes. Sei que me estavam a seguir atentamente. Mas, a maior parte do tempo, dormia.
Meses se passaram, sem grandes mudanças. A única diferença foi a polícia vir visitar-me quando me conseguia manter mais tempo acordada, para tirarem o meu depoimento em relação ao que se passara no dia do acidente. Contei tudo, desde a descoberta da traição, passando pelo relacionamento meio obsessivo da minha parte, até ao acidente. As palavras que ele me disse... Ainda estavam gravadas na minha mente.
Tirando isso, não tinha grandes vistas. Acho que ninguém avisou a minha família. Eu também não conseguia lembrar-me do numero deles, nem tinha o telemóvel comigo. Tinha ficado destruído no acidente. Paciência, também não me procuravam, se não já me tinham encontrado.
Um processo decorria em tribunal, por causa do acidente, e precisavam do meu testemunho, para acabar com a defesa de Diogo de vez, segundo me diziam. No entanto, não podia sair do hospital, ainda. Tinham de gravar o meu testemunho para memoria futura. E assim o fizeram. Fui quase massacrada pela advogada de defesa, que dizia que tudo era culpa da minha obsessão por Diogo, enquanto namorávamos. Ele não conseguiu aguentar o meu silêncio e tentou me raptar. Porque o objetivo não era matar-me. Nunca o fora, dissera ela. Ele só me queria pregar um susto, para voltar para ele. Parabéns, disse eu. Conseguiu assustar uma rua inteira. Nesse ponto, a advogada calou-se e não me disse mais nada. Terminaram o interrogatório e deixaram-me descansar. Já não suportava mais aquele processo. Porque é que ele não se matava, se sentia assim tanto a minha falta a ponto de me magoar? Nem sabia eu, mas isso estava prestes a acontecer. No dia em que leram a sentença, ele enforcou-se numa cela. Dizia, numa carta, que não conseguia aguentar a minha falta, ainda para mais numa sociedade que discriminava tanto os criminosos.
A mim restou-me saber da sua carta. Não podia fazer nada por ele, nunca pudera. Apenas podia fazer por mim, recuperando-me. E aqui continuo no hospital...
E foste-te
Foste-te embora, deixando-me aqui, desamparada. Deixaste-me só, no meu silêncio. Uma casa vazia, foi o que me restou. Silêncios redobrados pela falta de companhia. Fazes-me falta nesta vida, incessantemente. O que procuravas, afinal, em mim? Eu não sou perfeita, nunca o pretendi ser, sequer. Mas daí a insultares-me vai uma grande distancia. É contigo que estou a falar. Sim, contigo. Sabes quem és. Recuso a dar nome às minhas lamurias. Resta-me saber que a pessoa ...certa sabe quem é. Não, não é nenhum ex deste ou daquela. É apenas um desatino que tive. Breve como um momento. É pena partilhar algo de mim com alguém tão desmerecedor. Temo que, neste mundo, não haja almas boas. Apenas fingimentos desnecessários. O que aprendi foi uma lição, mais uma. Não vou chorar de arrependimento, isso nunca o faria. Mas minha alma está mais triste, isso sem dúvida nenhuma.
A Carta
Despertaste o que havia de mais negro em mim. Trouxeste-me em revolução até aqui. De ti não consegui fugir, por mais que eu quisesse. Fazes-me poesia com as tuas mãos. Eu sorrio e tu continuas. São versos as linhas que me desenhas. Sinto-me sufocar de tão breve respirar.
Suficiente leve, acalmas. Por fim paraste de me bater. Eu sangro e tu ris-te. Não te hei de dar o gosto de me ver chorar. Rio-me continuadamente, contigo. Sentes raiva e dás-me mais uma chapada. Não ...suportas a minha felicidade. Temes que consiga ser feliz, sem ti. Ou, talvez, contigo. Não suportas isso.
Temes que me vá. Mas como o conseguiria sem ti? Porque te amo. Amo quando vens, depois, mais calmo. Quando me pedes desculpa. Quando me enches de beijos. Amo até quando me bates... Pois sei que voltarás arrependido.
Amo-te e não sei como te corresponder. Porque cada traço meu de felicidade tu atacas. Dizes que cozinho mal, que não sou como a tua mãe. Pois claro que não sou. Com ela tu não casarias. Com ela tu não serias feliz, como tantas vezes afirmaste. No entanto, comparas-me a ela, uma mulher que se deixa bater, que perdoa o marido, que desculpa o filho justificando que a mulher merecia. Talvez não sejamos assim tão diferentes, afinal. Mas uma coisa te juro: no dia em que decidires matar-me, perder-me-ás. Pois não voltarei a amar-te, não te esperei no inferno. Pois inferno fizeste tu em vida.
Por isso abandono-te da forma mais 'fácil': matando-me. Estou farta desta vida, por muito que te ame. Escrevo esta carta em lagrimas por não te conseguir suportar mais. É-me difícil, mas aqui estou eu, pronta. Tomo este veneno que, em pouco tempo, há de fazer efeito. E aqui te deixo, só...
Desamparada
A noite tinha-se posto e não havia mais luz naquele lugar. Mariana sabia que estava na hora de partir. Tinha de voltar a casa. Mas
apetecia-lhe tanto ficar a observar aquele céu estrelado... Da sua casa não o
veria tão bem. Mas tinha dois filhos para alimentar. 'Responsabilidades
primeiro', pensou Mariana. Voltou, vagarosa, sabendo que teria de ser assim.
Chegada a casa, encontrou uma grande confusão. Não havia ponta por onde se lhe
pegasse. O que vale é que já tinha o jantar preparado. Arrumou o que pode e pôs
o jantar na mesa para os filhos. Saíra por uma hora e era isso o que deixavam.
Mariana não tinha tempo a perder. Enquanto os filhos jantavam, Mariana ia
arrumando as coisas. Quando finalmente o fez, era tempo de deitar os filhos.
Ela sabia que ia adormecer com eles. Não iria jantar, como sempre. Não dava,
tinha de ser mais ativa. Foi preparar um café mesmo antes de os deitar. Fraco,
para não ficar acordada muito tempo.
Após adormecer os filhos, sem dormir também, foi então
jantar. Pensou na vida, como era difícil, ali, no campo. Mas tinha sido ela que
a tinha escolhido assim, para fugir a um marido violento. Pensara que era o
melhor... Não tinha saudades do marido, mas sim da vida facilitada que tinha na
cidade, perto dos seus parentes. Mas eles haviam escolhido virar as costas a
Mariana quando mais precisou. Essa era a sua vida agora, longe de tudo e de
todos. Nunca a encontrariam naquela ilha, no meio do campo.
Só tinha saudades... Era só isso.
Quando deu por si era já meia-noite. 'Jesus, como demorei
tanto?', pensou. Foi se arranjar para dormir, e foi para a cama, de seguida.
Enquanto demorava a adormecer, pensou em como a noite estava apetecível... Morna,
aquecia o espírito de Mariana. Ela sentia saudades de ter um relacionamento,
não o podia negar. Estar ali, no meio do nada, era um sufoco. Mas os seus
filhos estavam primeiro. Quando o agora ex-marido os ameaçara matar, Mariana
não teve outra escolha senão fugir com eles, esconder-se do mundo. Eles estavam
bem, já não se lembravam de nada. Pelo menos assim aparentava.
Mariana foi vê-los. Dormiam calmamente. Nada lhes iria
correr mal naquele lugar. O que lhes poderia acontecer, afinal? Ali estavam
protegidos. Havia uma vizinha que sabia toda a verdade. Ela jurara segredo, mas
podia apostar que todos os outros também já o sabiam. Mas havia de correr mal,
não, nada.
Fechou os olhos. Mal sabia ela que era a última vez que o
faria. Não devia ter deixado a janela aberta, nunca...
Verdade Escondida
trovoada adivinhava-se terrível. Alexandra tinha ainda coisas a fazer. Achou
por bem ir deitar-se mais cedo, fazer as coisas de madrugada, quando a luz
voltasse. Afinal, tinha de se levantar cedo, mesmo. Tinha de visitar a sua avó
ao lar. Tinha sido ela que a havia criado Alexandra, a sua mãe tinha morrido em
nova. Era hora de dormir...
Pelas quatro da
madrugada, despertou. Alexandra verificou a luz. Acendeu. Ela levantou-se,
lavou a cara e foi tratar das tarefas. Tentou não fazer muito barulho, mas isso
parecia uma tarefa difícil. Mas tinha de se despachar, tinha de apanhar o
comboio bem cedo.
Por volta das seis
da manhã estava despachada. Foi-se arranjar para estar pronta até às sete
horas. Ainda queria algum tempo livre para beber café e relaxar.
Eram 8 horas e já
estava ao pé dos comboios. Seria um longo caminho até ao lar da avó. A seguir
teria de apanhar o autocarro até à sua terra e caminhar até à casa (que estava
vazia) da avó. Chegada lá, ainda tinha de fazer limpezas da casa. Por sorte
ainda tinha a àgua e luz ligadas, que Alexandra pagava com esforço. O gás era
de botija, ainda demorava a acabar. Mas chega de pensar em futilidades, pensou.
Tinha de ir visitar a avó antes das limpezas.
Pronta para sair,
caminhou até ao lar. O lar ficava numa rua desolada. Era apenas uma casa já
antiga. Não tinha dinheiro para a pôr num lar mais recente, com mais condições.
Chegou lá e pediu para falar com a avó, informando o nome. Dirigiu-se à sala de
espera, que costumava estar abarrotada mas nesse dia estava vazia. A sala era
pequena e mal aquecida. As janelas eram antigas, deixavam entrar o ar.
Finalmente chegou, numa cadeira de rodas empurrada por um funcionário de mau
humor. Deixou-a ali, ao abandono. O que vale é que era um dia de sol, os outros
utentes deviam estar no quintal. Reparou na falta de limpeza da sala, na falta
de ventilação, nas paredes cheias de caruncho. Pediu perdão à avó por tê-la de
deixar ali, não havia mais dinheiro para a pôr noutro lar. Suspeitava que o lar
disse clandestino, mas não tinha hipótese senão deixa-la ali. Pediu perdão,
perdão, perdão. A sua avó disse que a perdoava, mas descreveu várias situações
onde era maltratada. Alexandra chorava junto com a sua avó. Chorou até à hora
de saída. Veio o mesmo funcionário mal-humorado avisar que era hora de saída.
Levou a avó de Alexandra e saiu. Alexandra ficou mais um pouco, limpando as lágrimas.
'É aqui que mereces estar, avó', disse para si mesma. 'Por todo o mal que me
fizeste, é aqui que mereces estar'.
Alexandra sorria
enquanto saía. Passou pela receção, onde agradeceu por tratarem tão 'bem' a
avó...
Inspiração
Aqui estou eu, marcada. Tenho 12 anos. 12 anos de sofrimento, diria eu. Não me lembro de quando aconteceu pela primeira vez. Os
meus pais parecem não gostar de mim. A minha mãe mal me liga e bate-me. O meu
pai viola-me, noite sim, noite sim. Ele diz para não contar a ninguém,
ameaça-me. Mas aqui estou eu, a confessar os pecados dele. Estou sozinha, não
tenho irmãos. Talvez até seja uma coisa boa, não têm de sofrer como eu. Acho
que não suportaria que alguém sofresse como eu.
Tenho notas baixas, pois não me consigo concentrar nas
aulas. Tenho dores e durmo mal. Não sei que fazer mais. O período veio-me aos
11 anos, mas à dois meses que não me vem. Tenho medo de estar grávida. Foi o
meu pai, disso não há duvida. Não sei a quem falar, por isso decidi tornar publico.
Assim, pode ser que alguém me venha salvar desta família.
O meu avô morreu à semanas atrás, só me resta uma avó. Mas
não posso falar disso com ela. Já tentei, mas ela defende sempre o meu pai. E,
se falo das sovas da minha mãe, a minha avó vai falar com ela. O que significa
mais porrada.
Estou só neste mundo, é a minha sensação. Não sei a quem me
dirigir, mas, venha quem venha, só quero que saiba que o mundo é uma desilusão.
Injustiçada
Bruna olhava pela janela o pequeno bosque desolado. Estava trancada no seu quarto, outra vez. os seus pais assim o tinham determinado.
apenas porque pedira para sair com as suas amigas. Não pudera nem terminar a
refeição. 'Para saberes que, quanto te sobrar para festas, faltar-te-á para
comida', dissera sua mãe. os seus pais eram ríspidos demais, em comparação com
os das suas amigas. Todos pareciam agradáveis... Pelo menos as suas amigas
assim os descreviam. Quem lhe dera poder sair. Se o seu quarto não ficasse no
primeiro andar... Pensando bem, a queda não seria assim tão grande. Não, mas
que estava a pensar!? Mas porque não fugir? Só não seria nessa noite. Pela
madrugada abrir-lhe-iam a porta. Nessa altura poderia sair. A sua mãe ainda
estaria na cama e o pai prestes a sair para o trabalho. Ela despertava sempre
que ouvia a porta a ser destrancada.
Começou a preparar a
mochila, tirando os livros escolares e colocando duas mudas de roupa. Ainda bem
que a mochila era grande, ainda tinha espaço suficiente para colocar comida.
Agora só tinha de esperar que chegasse a madrugada. deitou-se vestida com uma
nova roupa, para que poupasse tempo.
'Clique', fez a
chave. Conforme o fez, Bruna despertou. Esperou pelo som da porta a bater no
andar de baixo e levantou-se. fazendo pouco barulho, saiu do quarto. Dirigiu-se
à cozinha, onde tirou alguma comida dos armários. Deixou-os abertos, para não
fazer mais barulho. Saiu de casa sorrateiramente, com a mochila pesada às
costas. Ainda estava a amanhecer quando saiu. As cores da madrugada eram
lindas, pensou. Mas não podia ficar ali a observar. tinha de andar, e depressa.
Havia pouco trânsito, a maior parte dos seus vizinhos ainda dormia. dirigiu-se
ao bosque mais longe de sua casa. Aí estaria protegida, iria até onde o bosque
a levasse, mesmo que fosse a lugar algum. A liberdade recém-adquirida estava a
dar-lhe adrenalina. Bruna ficou mais atrevida e decidiu caminhar até à aldeia
mais próxima. demorariam horas até que dessem falta dela. Bem, nem tanto assim.
Quando a sua mãe a fosse acordar, daí a uma hora, saberia que ela tinha
desaparecido. Bruna apressou o passo. Apesar de estar perto do bosque, decidiu
ir perto da estrada. Só assim se podia orientar. Ia no percurso à duas horas
quando ouviu o telemóvel. Devia ser a sua mãe. Nem olhou para saber quem era.
Já deviam saber do seu desaparecimento. Continuou a andar, apressando o passo.
Quando deu por si, um carro da polícia ia a seu lado. 'Oh cachopa, não estarás
perdida?', perguntou o polícia. Bruna nada respondeu. Estava com demasiado
medo, medo que a levassem de volta. Mas não lhe deram hipótese. Bruna foi
obrigada a parar. Forçaram-na a ligar para os seus pais. Bruna sentia frustação
pela fuga inacabada. Os polícias disseram que a levariam a casa. 'Não', queria
ela poder dizer. Não podia imaginar o castigo que iria apanhar. Sabia que ia
ser castigada, isso era certo. Quando chegou a casa, o pai já lá estava, claro.
Bruna sentiu medo. Abraçou o pai e a mãe à frente dos polícias. Esperou dentro
de casa, enquanto eles falavam. Bruna tinha fome, não tinha comido nada de
manhã, no meio da pressa. Mas estava com demasiado medo de comer. Podia levar
uma chapada por o fazer. Finalmente os seus pais chegaram a casa. Mandaram-na
de imediato para o quarto, sem comer. Disseram que iam ligar à escola, dizer
que nas próximas duas semanas não iria lá. Que ela veria o que lhe ia
acontecer.
A princípio,
aguentou bem o dia. Esperou pelo anoitecer para dormir de madrugada acordar com
o tal clique.
Acordou eram nove da
manhã. Estranhando, dirigiu-se à porta para sair. Não! Estava trancada! Como
era possível? Ela queria sair. Tentou empurrar a porta, gritou em desespero.
Nada, não se ouvia nada. Era como se tivesse sido abandonada. Estava com tanta
fome...
O desespero
preencheu-a durante dias, até ficar sem forças...
Seu corpo foi
encontrado pela família, um mês mais tarde, quando os seus pais regressaram. A
causa de morte foi considerada um lamentável acidente...
Coberta de sangue
De manhã, Ester levantou-se animada. Tinha tido a melhor noite até então. Nesse dia não iria à escola, fruto da 'festa' que tinha
ocorrido na noite anterior. Foi preparar o seu pequeno-almoço, silenciosamente.
Não queria fazer mais barulho, o da noite anterior tinha sido suficiente.
Satisfeita com a refeição, foi-se arranjar. Não que pensasse em sair. Não,
pensava em ficar em casa o dia todo. Queria desfrutar do silêncio. Como era
bom. Nunca se tinha divertido tanto quanto na noite anterior. Saiu do banho relaxada.
Limpou-se à toalha, deixando-a vermelha. 'Vermelho é uma boa cor', pensou. Não
ligando mais ao facto, Ester foi se vestir. De repente, ouviu alguém tocar à
campainha. 'Que desagradável', pensou. Espreitou à janela do quarto para ver
quem era. Era um vizinho. Possivelmente queria saber algo sobre os barulhos da
noite anterior. Bem, Ester não estava com muita vontade de dar respostas, por
isso ignorou o vizinho. Não queria ser incomodada. Começou a cantarolar
enquanto o vizinho insistia. 'Que chato', pensou. Não podia ouvir uns gritinhos
que tinha logo de saber o que é que se passava. Por fim ouviu um grito. Que
seria? Teria visto algo na sala? Realmente, ela estava suja. Suja do sangue da
sua família. For aí, ao jantar, que iniciara o ataque. Estava farta que
discutissem pelas suas más notas e faltas. Tinha ido à cozinha pegar numa faca
grande e cortara-lhes os pescoços, um a um. A sua increbilidade tinha ajudado.
Enquanto lhe gritavam, 'Mas que fizestes!? Mas que fizestes!?', ela ia matando
a família toda. Apenas tinha conseguido levar o corpo do pequeno irmão para
cima, onde o ensanguinhou e se banhou no seu sangue, essa manhã.
Em breve a polícia
estaria ali. Em breve a veriam, coberta do sangue do irmão. Ester estava nem
aí. Não lhe importava mais nada. Simplesmente queria silêncio...
Catarina
Enquanto esperava que o temporal passasse, Catarina ia bebendo uma chávena de chá quente. Que pena ela não ter lareira em casa, o primeiro piso de um prédio não o permitia. Mas, enfim, o aquecedor desenrascava. No entanto, tinha de o desligar. Odiava as contas da luz, no inverno. E odiava mais ainda que o seu noivo se demorasse no café. Tinha saído do trabalho há quase quatro horas. Desde quatro horas que o esperava. Só não ia ver dele porque não tinha carro. Ele tinha-o levado. Sempre a mesma coisa, a mesma história. Estava tão farta. Só estava com ele por estar grávida. Desconfiava que ele também. Suspeitava, também, que ele andava a traí-la. Não era de estranhar, derivado das saídas até tarde e constantes mensagens para uma tal de Paula. Apenas tinha-as apanhado uma vez, o suficiente para ficar com a pulga atrás da orelha.
Bem, Catarina não queria pensar mais nisso. Estava farta de esperar. Estava na hora de fazer o jantar. Antes de engravidar, mal sabia cozinhar. E também pouco o fazia. Agora, querendo ser melhor mãe do mundo, lia as receitas e deliciava-se em fazê-las. Hoje ia ser caldeirada. Nada de muito confuso. Comprara um conjunto de peixe embalado já pronto para pôr ao lume. Só esperava que ele não chegasse demasiado bêbado para jantar. Se é que não chegasse com ela já deitada, obrigando-a a levantar para lhe dar o jantar. Chato naqueles momentos, odiava isso.
Mais calma, tentou lhe ligar para saber quando chegava e onde estava. Nada, não atendia. Era impossível viver assim, sempre na duvida. Ela, mais do que nunca, queria sair daquela situação. Mas não podia, pela bebé. Sim, era uma menina. Ia lhe pôr o nome de Bruna. Ele não gostava, chegaram a discutir forte e feio por causa disso. Ele queria que tivesse o nome da mãe dele: Maria. Ela nem morta lhe poria esse nome. Disse Bruna e pronto. Não havia mais nada a discutir. Ele, chateado, havia saído de casa. Quando voltara, nesse dia, não lhe falara mais. Passados uns dias voltara-lhe a falar, mas não discutiram mais o nome da criança. Estava decidido, segundo Catarina. Mas não voltara a puxar o assunto.
Já passava da meia noite quando ele chegou. Deu por ele pois fazia um barulho desgraçado. Parecia que não via as coisas. Como hábito, Catarina levantou-se para lhe ir aquecer o jantar. Nem ligava mais aos objetos que atirava ao chão com a sua locomoção desajeitada. Depois limparia a casa e apanharia os cacos, outra vez. Oxalá ele pisasse algum e ficasse calmo por uns dias. Se bem que, tê-lo por casa era sempre enervante. E, nesse estado, deveria ser impossível. Não poder fazer nada e querer ir ao café... Não, ia já apanhar os cacos. Passou por ele sem lhe dizer nada.
- Então amor, não me dizes nada.
- Que queres que eu diga? Estás bêbado, como sempre. Telefonei-te e não atendeste.
- Desculpa, amor, não ouvi. Tens o jantar pronto?
- É claro que tenho. À horas! Mas tu não apareceste. Está a aquecer no micro-ondas neste momento.
- Desculpa, amorzinho. Juro que vou mudar.
- É bom que mudes. Estou a ficar farta.
- Não fiques assim, querida. Eu mudo, juro-te.
- Vai mas é comer, que já não posso ouvir-te dizer disparates.
- Está bem, querida.
Catarina continuou a limpar os cacos, enquanto ele ia buscar o prato com a comida ao micro-ondas. Subitamente, ouviu o prato a estalar-se no chão. Não, ela é que devia ter ido buscar o comer. Mais uma vez, havia partido algo. Catarina, com os cacos na mão, foi ver o que se passava. Ele tinha caído ao chão. Irritada, nem pensou duas vezes. Deixou cair ao chão uns cacos, menos um, grande e grosso. Com esse, começou a atirar ao noivo. Ele, sem reação por causa da bebida, mal teve como defender-se. Cortou-lhe a jugular do pescoço com uma intensa força, vinda das profundezas da sua raiva. Ele levou a mão ao pescoço e disse:
- Porquê me fizeste isso?
E, pouco depois, perdeu os sentidos. Não, será que estaria morto? Ela não sabia. Catarina, agora confusa com o que tinha feito, deixou cair o ultimo caco. Que seria dela e da bebé? Tinha de fazer algo. Chamou uma ambulância e afirmou que ele se tentara matar. A polícia, ao ver sangue nas suas mãos, não acreditou. Levaram-na e detiveram-na, até que ela confessou. Fingindo-se de louca, conseguiu evitar ir para a prisão, a principio. Sabendo que a bebé poderia ser dada para adoção, fez com que a guarda futura fosse para a sua mãe. Agora seria esperar até ao nascimento.
O noivo de Catarina nunca chegou a recuperar dos ferimentos, morrendo já no hospital. Por isso ela iria ser julgada de homicídio voluntário. 'Mas como é que eles adivinharam que eu o matei durante uma fraqueza dele?', pensou Catarina. Isso nunca iria descobrir.
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