quinta-feira, maio 18, 2017

Desamparada

A noite tinha-se posto e não havia mais luz naquele lugar. Mariana sabia que estava na hora de partir. Tinha de voltar a casa. Mas apetecia-lhe tanto ficar a observar aquele céu estrelado... Da sua casa não o veria tão bem. Mas tinha dois filhos para alimentar. 'Responsabilidades primeiro', pensou Mariana. Voltou, vagarosa, sabendo que teria de ser assim. Chegada a casa, encontrou uma grande confusão. Não havia ponta por onde se lhe pegasse. O que vale é que já tinha o jantar preparado. Arrumou o que pode e pôs o jantar na mesa para os filhos. Saíra por uma hora e era isso o que deixavam. Mariana não tinha tempo a perder. Enquanto os filhos jantavam, Mariana ia arrumando as coisas. Quando finalmente o fez, era tempo de deitar os filhos. Ela sabia que ia adormecer com eles. Não iria jantar, como sempre. Não dava, tinha de ser mais ativa. Foi preparar um café mesmo antes de os deitar. Fraco, para não ficar acordada muito tempo. Após adormecer os filhos, sem dormir também, foi então jantar. Pensou na vida, como era difícil, ali, no campo. Mas tinha sido ela que a tinha escolhido assim, para fugir a um marido violento. Pensara que era o melhor... Não tinha saudades do marido, mas sim da vida facilitada que tinha na cidade, perto dos seus parentes. Mas eles haviam escolhido virar as costas a Mariana quando mais precisou. Essa era a sua vida agora, longe de tudo e de todos. Nunca a encontrariam naquela ilha, no meio do campo. Só tinha saudades... Era só isso. Quando deu por si era já meia-noite. 'Jesus, como demorei tanto?', pensou. Foi se arranjar para dormir, e foi para a cama, de seguida. Enquanto demorava a adormecer, pensou em como a noite estava apetecível... Morna, aquecia o espírito de Mariana. Ela sentia saudades de ter um relacionamento, não o podia negar. Estar ali, no meio do nada, era um sufoco. Mas os seus filhos estavam primeiro. Quando o agora ex-marido os ameaçara matar, Mariana não teve outra escolha senão fugir com eles, esconder-se do mundo. Eles estavam bem, já não se lembravam de nada. Pelo menos assim aparentava. Mariana foi vê-los. Dormiam calmamente. Nada lhes iria correr mal naquele lugar. O que lhes poderia acontecer, afinal? Ali estavam protegidos. Havia uma vizinha que sabia toda a verdade. Ela jurara segredo, mas podia apostar que todos os outros também já o sabiam. Mas havia de correr mal, não, nada. Fechou os olhos. Mal sabia ela que era a última vez que o faria. Não devia ter deixado a janela aberta, nunca...

Verdade Escondida

trovoada adivinhava-se terrível. Alexandra tinha ainda coisas a fazer. Achou por bem ir deitar-se mais cedo, fazer as coisas de madrugada, quando a luz voltasse. Afinal, tinha de se levantar cedo, mesmo. Tinha de visitar a sua avó ao lar. Tinha sido ela que a havia criado Alexandra, a sua mãe tinha morrido em nova. Era hora de dormir... Pelas quatro da madrugada, despertou. Alexandra verificou a luz. Acendeu. Ela levantou-se, lavou a cara e foi tratar das tarefas. Tentou não fazer muito barulho, mas isso parecia uma tarefa difícil. Mas tinha de se despachar, tinha de apanhar o comboio bem cedo. Por volta das seis da manhã estava despachada. Foi-se arranjar para estar pronta até às sete horas. Ainda queria algum tempo livre para beber café e relaxar. Eram 8 horas e já estava ao pé dos comboios. Seria um longo caminho até ao lar da avó. A seguir teria de apanhar o autocarro até à sua terra e caminhar até à casa (que estava vazia) da avó. Chegada lá, ainda tinha de fazer limpezas da casa. Por sorte ainda tinha a àgua e luz ligadas, que Alexandra pagava com esforço. O gás era de botija, ainda demorava a acabar. Mas chega de pensar em futilidades, pensou. Tinha de ir visitar a avó antes das limpezas. Pronta para sair, caminhou até ao lar. O lar ficava numa rua desolada. Era apenas uma casa já antiga. Não tinha dinheiro para a pôr num lar mais recente, com mais condições. Chegou lá e pediu para falar com a avó, informando o nome. Dirigiu-se à sala de espera, que costumava estar abarrotada mas nesse dia estava vazia. A sala era pequena e mal aquecida. As janelas eram antigas, deixavam entrar o ar. Finalmente chegou, numa cadeira de rodas empurrada por um funcionário de mau humor. Deixou-a ali, ao abandono. O que vale é que era um dia de sol, os outros utentes deviam estar no quintal. Reparou na falta de limpeza da sala, na falta de ventilação, nas paredes cheias de caruncho. Pediu perdão à avó por tê-la de deixar ali, não havia mais dinheiro para a pôr noutro lar. Suspeitava que o lar disse clandestino, mas não tinha hipótese senão deixa-la ali. Pediu perdão, perdão, perdão. A sua avó disse que a perdoava, mas descreveu várias situações onde era maltratada. Alexandra chorava junto com a sua avó. Chorou até à hora de saída. Veio o mesmo funcionário mal-humorado avisar que era hora de saída. Levou a avó de Alexandra e saiu. Alexandra ficou mais um pouco, limpando as lágrimas. 'É aqui que mereces estar, avó', disse para si mesma. 'Por todo o mal que me fizeste, é aqui que mereces estar'. Alexandra sorria enquanto saía. Passou pela receção, onde agradeceu por tratarem tão 'bem' a avó...

Inspiração

Aqui estou eu, marcada. Tenho 12 anos. 12 anos de sofrimento, diria eu. Não me lembro de quando aconteceu pela primeira vez. Os meus pais parecem não gostar de mim. A minha mãe mal me liga e bate-me. O meu pai viola-me, noite sim, noite sim. Ele diz para não contar a ninguém, ameaça-me. Mas aqui estou eu, a confessar os pecados dele. Estou sozinha, não tenho irmãos. Talvez até seja uma coisa boa, não têm de sofrer como eu. Acho que não suportaria que alguém sofresse como eu. Tenho notas baixas, pois não me consigo concentrar nas aulas. Tenho dores e durmo mal. Não sei que fazer mais. O período veio-me aos 11 anos, mas à dois meses que não me vem. Tenho medo de estar grávida. Foi o meu pai, disso não há duvida. Não sei a quem falar, por isso decidi tornar publico. Assim, pode ser que alguém me venha salvar desta família. O meu avô morreu à semanas atrás, só me resta uma avó. Mas não posso falar disso com ela. Já tentei, mas ela defende sempre o meu pai. E, se falo das sovas da minha mãe, a minha avó vai falar com ela. O que significa mais porrada. Estou só neste mundo, é a minha sensação. Não sei a quem me dirigir, mas, venha quem venha, só quero que saiba que o mundo é uma desilusão.

Injustiçada

Bruna olhava pela janela o pequeno bosque desolado. Estava trancada no seu quarto, outra vez. os seus pais assim o tinham determinado. apenas porque pedira para sair com as suas amigas. Não pudera nem terminar a refeição. 'Para saberes que, quanto te sobrar para festas, faltar-te-á para comida', dissera sua mãe. os seus pais eram ríspidos demais, em comparação com os das suas amigas. Todos pareciam agradáveis... Pelo menos as suas amigas assim os descreviam. Quem lhe dera poder sair. Se o seu quarto não ficasse no primeiro andar... Pensando bem, a queda não seria assim tão grande. Não, mas que estava a pensar!? Mas porque não fugir? Só não seria nessa noite. Pela madrugada abrir-lhe-iam a porta. Nessa altura poderia sair. A sua mãe ainda estaria na cama e o pai prestes a sair para o trabalho. Ela despertava sempre que ouvia a porta a ser destrancada. Começou a preparar a mochila, tirando os livros escolares e colocando duas mudas de roupa. Ainda bem que a mochila era grande, ainda tinha espaço suficiente para colocar comida. Agora só tinha de esperar que chegasse a madrugada. deitou-se vestida com uma nova roupa, para que poupasse tempo. 'Clique', fez a chave. Conforme o fez, Bruna despertou. Esperou pelo som da porta a bater no andar de baixo e levantou-se. fazendo pouco barulho, saiu do quarto. Dirigiu-se à cozinha, onde tirou alguma comida dos armários. Deixou-os abertos, para não fazer mais barulho. Saiu de casa sorrateiramente, com a mochila pesada às costas. Ainda estava a amanhecer quando saiu. As cores da madrugada eram lindas, pensou. Mas não podia ficar ali a observar. tinha de andar, e depressa. Havia pouco trânsito, a maior parte dos seus vizinhos ainda dormia. dirigiu-se ao bosque mais longe de sua casa. Aí estaria protegida, iria até onde o bosque a levasse, mesmo que fosse a lugar algum. A liberdade recém-adquirida estava a dar-lhe adrenalina. Bruna ficou mais atrevida e decidiu caminhar até à aldeia mais próxima. demorariam horas até que dessem falta dela. Bem, nem tanto assim. Quando a sua mãe a fosse acordar, daí a uma hora, saberia que ela tinha desaparecido. Bruna apressou o passo. Apesar de estar perto do bosque, decidiu ir perto da estrada. Só assim se podia orientar. Ia no percurso à duas horas quando ouviu o telemóvel. Devia ser a sua mãe. Nem olhou para saber quem era. Já deviam saber do seu desaparecimento. Continuou a andar, apressando o passo. Quando deu por si, um carro da polícia ia a seu lado. 'Oh cachopa, não estarás perdida?', perguntou o polícia. Bruna nada respondeu. Estava com demasiado medo, medo que a levassem de volta. Mas não lhe deram hipótese. Bruna foi obrigada a parar. Forçaram-na a ligar para os seus pais. Bruna sentia frustação pela fuga inacabada. Os polícias disseram que a levariam a casa. 'Não', queria ela poder dizer. Não podia imaginar o castigo que iria apanhar. Sabia que ia ser castigada, isso era certo. Quando chegou a casa, o pai já lá estava, claro. Bruna sentiu medo. Abraçou o pai e a mãe à frente dos polícias. Esperou dentro de casa, enquanto eles falavam. Bruna tinha fome, não tinha comido nada de manhã, no meio da pressa. Mas estava com demasiado medo de comer. Podia levar uma chapada por o fazer. Finalmente os seus pais chegaram a casa. Mandaram-na de imediato para o quarto, sem comer. Disseram que iam ligar à escola, dizer que nas próximas duas semanas não iria lá. Que ela veria o que lhe ia acontecer. A princípio, aguentou bem o dia. Esperou pelo anoitecer para dormir de madrugada acordar com o tal clique. Acordou eram nove da manhã. Estranhando, dirigiu-se à porta para sair. Não! Estava trancada! Como era possível? Ela queria sair. Tentou empurrar a porta, gritou em desespero. Nada, não se ouvia nada. Era como se tivesse sido abandonada. Estava com tanta fome... O desespero preencheu-a durante dias, até ficar sem forças... Seu corpo foi encontrado pela família, um mês mais tarde, quando os seus pais regressaram. A causa de morte foi considerada um lamentável acidente...

Coberta de sangue

De manhã, Ester levantou-se animada. Tinha tido a melhor noite até então. Nesse dia não iria à escola, fruto da 'festa' que tinha ocorrido na noite anterior. Foi preparar o seu pequeno-almoço, silenciosamente. Não queria fazer mais barulho, o da noite anterior tinha sido suficiente. Satisfeita com a refeição, foi-se arranjar. Não que pensasse em sair. Não, pensava em ficar em casa o dia todo. Queria desfrutar do silêncio. Como era bom. Nunca se tinha divertido tanto quanto na noite anterior. Saiu do banho relaxada. Limpou-se à toalha, deixando-a vermelha. 'Vermelho é uma boa cor', pensou. Não ligando mais ao facto, Ester foi se vestir. De repente, ouviu alguém tocar à campainha. 'Que desagradável', pensou. Espreitou à janela do quarto para ver quem era. Era um vizinho. Possivelmente queria saber algo sobre os barulhos da noite anterior. Bem, Ester não estava com muita vontade de dar respostas, por isso ignorou o vizinho. Não queria ser incomodada. Começou a cantarolar enquanto o vizinho insistia. 'Que chato', pensou. Não podia ouvir uns gritinhos que tinha logo de saber o que é que se passava. Por fim ouviu um grito. Que seria? Teria visto algo na sala? Realmente, ela estava suja. Suja do sangue da sua família. For aí, ao jantar, que iniciara o ataque. Estava farta que discutissem pelas suas más notas e faltas. Tinha ido à cozinha pegar numa faca grande e cortara-lhes os pescoços, um a um. A sua increbilidade tinha ajudado. Enquanto lhe gritavam, 'Mas que fizestes!? Mas que fizestes!?', ela ia matando a família toda. Apenas tinha conseguido levar o corpo do pequeno irmão para cima, onde o ensanguinhou e se banhou no seu sangue, essa manhã. Em breve a polícia estaria ali. Em breve a veriam, coberta do sangue do irmão. Ester estava nem aí. Não lhe importava mais nada. Simplesmente queria silêncio...

Catarina

Enquanto esperava que o temporal passasse, Catarina ia bebendo uma chávena de chá quente. Que pena ela não ter lareira em casa, o primeiro piso de um prédio não o permitia. Mas, enfim, o aquecedor desenrascava. No entanto, tinha de o desligar. Odiava as contas da luz, no inverno. E odiava mais ainda que o seu noivo se demorasse no café. Tinha saído do trabalho há quase quatro horas. Desde quatro horas que o esperava. Só não ia ver dele porque não tinha carro. Ele tinha-o levado. Sempre a mesma coisa, a mesma história. Estava tão farta. Só estava com ele por estar grávida. Desconfiava que ele também. Suspeitava, também, que ele andava a traí-la. Não era de estranhar, derivado das saídas até tarde e constantes mensagens para uma tal de Paula. Apenas tinha-as apanhado uma vez, o suficiente para ficar com a pulga atrás da orelha. Bem, Catarina não queria pensar mais nisso. Estava farta de esperar. Estava na hora de fazer o jantar. Antes de engravidar, mal sabia cozinhar. E também pouco o fazia. Agora, querendo ser melhor mãe do mundo, lia as receitas e deliciava-se em fazê-las. Hoje ia ser caldeirada. Nada de muito confuso. Comprara um conjunto de peixe embalado já pronto para pôr ao lume. Só esperava que ele não chegasse demasiado bêbado para jantar. Se é que não chegasse com ela já deitada, obrigando-a a levantar para lhe dar o jantar. Chato naqueles momentos, odiava isso. Mais calma, tentou lhe ligar para saber quando chegava e onde estava. Nada, não atendia. Era impossível viver assim, sempre na duvida. Ela, mais do que nunca, queria sair daquela situação. Mas não podia, pela bebé. Sim, era uma menina. Ia lhe pôr o nome de Bruna. Ele não gostava, chegaram a discutir forte e feio por causa disso. Ele queria que tivesse o nome da mãe dele: Maria. Ela nem morta lhe poria esse nome. Disse Bruna e pronto. Não havia mais nada a discutir. Ele, chateado, havia saído de casa. Quando voltara, nesse dia, não lhe falara mais. Passados uns dias voltara-lhe a falar, mas não discutiram mais o nome da criança. Estava decidido, segundo Catarina. Mas não voltara a puxar o assunto. Já passava da meia noite quando ele chegou. Deu por ele pois fazia um barulho desgraçado. Parecia que não via as coisas. Como hábito, Catarina levantou-se para lhe ir aquecer o jantar. Nem ligava mais aos objetos que atirava ao chão com a sua locomoção desajeitada. Depois limparia a casa e apanharia os cacos, outra vez. Oxalá ele pisasse algum e ficasse calmo por uns dias. Se bem que, tê-lo por casa era sempre enervante. E, nesse estado, deveria ser impossível. Não poder fazer nada e querer ir ao café... Não, ia já apanhar os cacos. Passou por ele sem lhe dizer nada. - Então amor, não me dizes nada. - Que queres que eu diga? Estás bêbado, como sempre. Telefonei-te e não atendeste. - Desculpa, amor, não ouvi. Tens o jantar pronto? - É claro que tenho. À horas! Mas tu não apareceste. Está a aquecer no micro-ondas neste momento. - Desculpa, amorzinho. Juro que vou mudar. - É bom que mudes. Estou a ficar farta. - Não fiques assim, querida. Eu mudo, juro-te. - Vai mas é comer, que já não posso ouvir-te dizer disparates. - Está bem, querida. Catarina continuou a limpar os cacos, enquanto ele ia buscar o prato com a comida ao micro-ondas. Subitamente, ouviu o prato a estalar-se no chão. Não, ela é que devia ter ido buscar o comer. Mais uma vez, havia partido algo. Catarina, com os cacos na mão, foi ver o que se passava. Ele tinha caído ao chão. Irritada, nem pensou duas vezes. Deixou cair ao chão uns cacos, menos um, grande e grosso. Com esse, começou a atirar ao noivo. Ele, sem reação por causa da bebida, mal teve como defender-se. Cortou-lhe a jugular do pescoço com uma intensa força, vinda das profundezas da sua raiva. Ele levou a mão ao pescoço e disse: - Porquê me fizeste isso? E, pouco depois, perdeu os sentidos. Não, será que estaria morto? Ela não sabia. Catarina, agora confusa com o que tinha feito, deixou cair o ultimo caco. Que seria dela e da bebé? Tinha de fazer algo. Chamou uma ambulância e afirmou que ele se tentara matar. A polícia, ao ver sangue nas suas mãos, não acreditou. Levaram-na e detiveram-na, até que ela confessou. Fingindo-se de louca, conseguiu evitar ir para a prisão, a principio. Sabendo que a bebé poderia ser dada para adoção, fez com que a guarda futura fosse para a sua mãe. Agora seria esperar até ao nascimento. O noivo de Catarina nunca chegou a recuperar dos ferimentos, morrendo já no hospital. Por isso ela iria ser julgada de homicídio voluntário. 'Mas como é que eles adivinharam que eu o matei durante uma fraqueza dele?', pensou Catarina. Isso nunca iria descobrir.

Mariella

Era tarde quando Mariella decidiu ir dormir. Detestava a casa da avó, cheia de barulhos antigos. Era de madeira, o que aumentava os barulhos habituais. Mariella despiu-se rápido e enfiou-se na cama. Estava sem bateria no telemóvel e havia poucas tomadas na casa, pelo que não tinha com ela. Odiava tudo naquela casa, desde sempre. Apenas a presença da sua avó a tornava suportável. Mas agora tinha falecido... Mariella era obrigada com a sua família a dormir lá, já que moravam noutra cidade e não tinham outra residência na terra da avó. De repente ouviu um barulho. 'Deve ser só um rato', pensou. Sabia que havia ratos ali, já os tinha visto. A avó bem que tentava livrar-se deles, mas sempre escapava algum. Mariella, ainda assim, acreditava em espíritos. Havia demasiados barulhos estranhos naquela casa. Nunca tinha visto nada, claro. Mas isso não lhe tirava o medo... De repente, pareceu-lhe ver uma sombra. Não, era apenaso reflexo de um carro a passar. Tentava adormecer quando lhe pareceu ouvir um barulho vindo da cozinha. Quer disse um rato ou um espírito, o medo era igual. Enfiou-se mais dentro dos cobertores. Sabia que os pais eram pragmáticos, não acreditavam em espíritos. Mas Mariella acreditava. Dormir naquela casa durante as férias escolares não tinha ajudado. Mariella estava farta de ter medo, iria à cozinha ver do telemóvel e a raiz daquele barulho. Levantou-se com cuidado. A cama fazia barulho. Ela não queria despertar os seus pais com os seus medos. Decidiu deixar a porta aberta, para não fazer mais barulho. Desceu as escadas com cuidado. Ouviu outro barulho vindo da cozinha. A sua pele arrepiou ao ouvi-lo. Calmamente dirigiu-se à cozinha... Era apenas uma janela aberta. Foi fechá-la e verificou o seu telemóvel. Estava carregado. Desligou a ficha e pegou no telemóvel para se ir embora. Virou-se rapidamente e ficou cara a cara com a sua falecida avó. Não se conseguiu conter e gritou. O espírito da sua avó desapareceu conforme gritou. Os seus pais rapidamente vieram e reclamaram por ela não estar deitada, como devia ser. Mariella não lhes falou no encontro, com medo de mais reemprensões. Foi-se deitar e tapou-se bem, com medo de mais aparições...

Laura

Estava escuro. Laura não sabia para onde se virar. Ouvia vozes ao fundo a troçar dela. Estava encurralada. Não haveria um herói que a fosse salvar, tinha de se safar sozinha. Viu uma rede. Era a sua única hipótese, escalar aquela rede com arame farpado. Isso ou deixar-se atacar, novamente. Estava farta do bullying de que era alvo. Não tinha amigos, só gente daquela a atacá-la. Não sabia mais o que fazer. Começou a escalar aquela rede com alguma dificuldade. Escalagem nunca fora o seu forte. Mas era a sua única hipótese de se safar, tinha de conseguir subir. Eles tinham chegado. - Onde pensas que vais? Vem cá abaixo para nós falarmos um pouco, não te fazemos mal. - Disse um. - Sim, nós não te vamos fazer mal. - Disse outra. Nem sequer sabia o nome deles, apenas que mentiam. Da última vez tinham-na deixado toda negra, por sorte não fora ao hospital. A sua mãe agira. Ficaram suspensos por uma semana. Esta era a sua vingança. De repente, apareceram uns cães do outro lado que rosnavam intensamente para Laura. Laura não sabia o que fazer. Se atravessasse o arame farpado, ia não só rasgar a sua pele como ser maltratada pelos cães. Após algum tempo de ponderação, decidiu que o melhor era voltar para trás. Os outros ainda lá estavam. Laura estava prestes a fazer um sacrifício. Tentou imaginar que não era ela, enquanto lhe batiam. Era outra, era ela, não Laura. No final tinham-lhe partido um dente e deixando-a toda negra a um canto, sangrando. Laura não se conseguia levantar, nem sequer mexer. Podia ser que a encontrassem. Podia ser que não. Podia ser que desaparecesse ali.

Célia

Estava escuro. Célia não queria estar ali. Era sempre o mesmo. O escuro penetrava no quarto. O frio chegava, pesado. Depois, quando era bem tarde, ele vinha. Começou por espreitar apenas o quarto. Mais tarde aventurara-se a entrar no quarto, observando-a. Não tinha sido uma ou duas, mas muitas vezes, tinha-o visto ali, parado a observá-la. Ela sentia calafrios cada vez que o via. Escondia-se debaixo dos cobertores para não o ver. Tinha medo. Ainda não se habituara a viver ali. Tendo crescido num orfanato, um quarto para si, em silêncio parecia-lhe assustador. A sua nova família era simpática, mas sentia-se demasiado envergonhada de ir para a cama dos pais. Ele estava ali, agora. Sentia medo. Que será que faria? Ficaria a observar, apenas, ou avançaria, como já o havia feito? Célia não lhe conseguia ver a cara, estava demasiado escuro. E ela demasiado temerosa para acender a luz. Tinha medo que a tentasse tocar, outra vez. Que se deitasse com ela, que lhe tapasse a boca enquanto a... Não! Não queria pensar nisso! Tinha sido um pesadelo, com certeza. Apenas isso. Jamais acontecera... E, quando viu, ele estava a aproximar-se, novamente. Quando ele se deitou com ela, Célia abriu os olhos e viu o rosto do pai...

Joana

Joana chegou a casa completamente encharcada. Que mau dia para se esquecer do guarda-chuva. As suas colegas ainda não tinham chegado. As três eram muito unidas, era normal que tivessem saído. Joana também estava a pensar sair. Mas sair de casa mesmo. As colegas tinham-se unido contra Joana, pois queriam pôr outra amiga lá em casa. Para isso andavam a fazer-lhe a vida negra. Mas Joana não queria saber disso agora, eram pequenas coisas. Precisava tomar um banho e vestir o pijama. Após isso, foi preparar o jantar. As colegas chegaram, entretanto, divertidas. Traziam a sua 'substituta' e enfiaram-se num dos quartos. Tentou ligar ao namorado, mas ele nem atendeu a chamada. Estava de tudo, das colegas, que faziam barulho em demasia, e do namorado, que não lhe atendia as chamadas. Deixou o telemóvel no quarto, trancado, e continuou a fazer o jantar. Depois de isso feito, e de ter jantado, foi para o quarto. Olhou para o telemóvel. Ainda nada. Ele ia ouvi-las, ai ia. Conseguia ouvir as colegas a rir-se entusiasmadamente. Joana sentiu raiva, sentiu que se riam dela. Decidiu ir dormir e não pensar mais no assunto. Afinal elas não podiam saber que Joana estava zangada com o namorado. Era madrugada. Porque acordara? Estava a ouvir sussurros. Uma das colegas estava a ter relações. Tentou ignorar, mas apetecia-lhe tanto que o namorado estivesse ali. Até lhe pareceu ouvir a voz dele... Estranho, era mesmo parecida a voz.... Era ele, mesmo! Com a sua colega. Joana sentiu-se enraivecida. E com vontade de chorar. O que iria fazer? À três dias que ele não lhe falava. Queria dizer isso que tinham acabado? Sim, definitivamente. Não tinha mais nada a dizer a ele. Mas ia-se vingar dela. Esperou que acabassem e que ele se fosse embora. Quando o fez, Joana levantou-se. Foi procurar a faca de mato que o pai lhe tinha oferecido. Encontrando-a, levou-a consigo. A porta da colega estava entreaberta. 'Que queres', perguntou a colega; 'Ele já bazou. Perdeste o namorado, foi?', riu-se ela. Joana não aguentou mais. Revelou a faca que trazia na mão e atirou-se a ela. A colega nem teve tempo de gritar, Joana cortou-lhe o pescoço. Satisfeita consigo mesma, largou a faca, e foi para o quarto, dormir. Acordou com os berros das colegas a chamarem a polícia, no dia a seguir. Sentiu-se mal por não as ter morto também...

O lobo

Lá estava ele. Não, outra vez. Aquele lobo não a deixava em paz. Por mais que se tentasse mexer para fugir, não conseguia. Estava presa. E ele aproximava-se... Estava em cima dela... Acordou. Estava suada. Há imensas noites que sonhava com aquele lobo de olhos raiados de sangue. Não conseguia descansar direito. Levantou-se e foi imediatamente tomar banho. Sentia-se tensa, mas tudo passou no banho. Todas as suas energias foram repostas. Estava um dia frio, mas o sol dava a sensação de calor. Tomou o pequeno almoço, enquanto pensava que fazer a seguir. Um dos males de ser desempregada, pensou Alexia. Não tinha nada para fazer. Mas também não lhe apetecia sair. Á algum tempo que andava com uma sensação que algo de mal estava para ocorrer. Sentia-se paranoica. Mas, ao mesmo tempo, aquela sensação não desaparecia. Há bastante tempo que dormia pouco e mal. Nem sabia como tinha dormido tanto nessa noite. Não tinha com quem falar pois a muito tempo, graças a essas paranoias, tinha perdido muitos amigos. Estava só. Mas tinha estranhas visões. Via um homem e um rapaz. Não, devia ser um sonho. Eles estavam mesmo a frente dela, a falar com ela. Mas as palavras pairavam no ar, palpáveis, em vez de ditas. Começou a acreditar nessas visões. Não mais onde se agarrar. Diziam que a iam salvar. Do quê!? Que mal estava para vir? Maldita sensação. O dia passou... Veio a noite. No dia a seguir devia ir trabalhar. Mas algo a continuava a avisar de um mal que estava para vir. Não conseguia dormir. Toda a noite sem comer, apenas bebendo água. Sem dormir. Ela 'via' alguém, que alguém a iria esperar para lhe fazer mal. Não conseguia dormir. Sentia-se angustiada, não sabia o que havia de fazer. Ela iria mais cedo que da outra vez, para chegar a tempo. Ainda tinha de percorrer um quilometro, pelo menos, até ao local do trabalho. Mas tudo o que ela conseguia 'ver' era alguém á espera dela, no caminho, num carro... As horas passavam e Alexia cada vez mais angustiada. Devia ter feito o almoço do dia a seguir, mas não conseguia. As visões sucediam-se. Que vinha alguém e iria a proteger. Alguém iria impedir que lhe fizessem mal. Mas ela tinha medo. O caminho era longo e iria completamente sozinha. Passou a hora de se levantar e se arranjar e ela sem o conseguir. Angustiada, decidiu que não iria. Iria pedir baixa por depressão. Era incapaz de sair de casa e fazer aquele caminho na escuridão completa tendo a sensação que alguém lhe iria fazer mal. Sentia-se uma prisioneira da sua própria imaginação. Mas não tinha ninguém em quem confiar. Ninguém com quem falar. Ninguém para atestar que estava a ficar louca ou lúcida demais. Não sabia que fazer.

Lúcia

Lúcia julgava que estava sozinha. Mas havia algo de estranho na casa. Lúcia tinha acabado de acordar com barulhos na cozinha. Alguém estava lá. Ela estava com demasiado medo para se levantar. Mas tinha de o fazer. Ela não morava com mais ninguém, desde que acabara um relacionamento recentemente. Então pensou se seria ele. Ele ainda tinha a chave. Lúcia tinha de se levantar, e assim o fez. Caminhou até à sala, parecendo-lhe ouvir sussurros vindo daí. 'Que estranho', pensou. Não se via ninguém. E a luz estava apagada. Dirigiu-se então à cozinha. Acendeu a luz. Nada. Não havia ninguém. E estava tudo no seu lugar. Mas Lúcia tinha a certeza que tinha ouvido algo. Como era possível? Estranhando, Lúcia seguiu para a cama. Mas não sem antes verificar a porta de casa. Conforme o fazia, sentiu um vulto a passar por trás dela. Virou-se e não vou nada. Devia ser impressão sua. Voltou para a cama. Decidiu no mínimo fingir que dormia. Enquanto o fazia, sentiu que alguém entrava no seu quarto. Sentiu-o aproximar-se da cama, respirar por cima de si. De repente levantou-se e acendeu a luz. Nada, ninguém estava ali. Como era isto possível!? Tinha a certeza, tinham respirado para cima dela. Mau, seria algum espírito? Não, não podia ser. Lúcia não acreditava em espíritos. Eram fantasia, imaginação. Alguém estava em casa, tinha a certeza. Decidiu ir investigar todas as divisões. A começar pelo quarto. Vasculhou por todo o lado. Mas não encontrou nada. Cansada, voltou para a cama. Não ouviu mais nada nessa noite. No dia seguinte levantou-se calma. Dirigiu-se à cozinha, onde encontrou todas as portas abertas. Mas que raios... Mas se não havia ninguém lá, como as portas se tinham aberto? Lúcia sentiu medo. Nesse momento recebeu uma mensagem. Era uma amiga a comunicar que nessa noite o seu ex tinha tido um acidente de mota e morrido. Lúcia ficou estática. Seria ele que tinha feito aquilo tudo, em espírito?...

Mariza

Mariza estava à espera de algo diferente. Não podia acreditar que a vida disse só assim. Livre de escolher, o destino demonstrava-se certo: o casamento. Ela queria mais. Mas nunca fora boa na escola... Com o destino selado, para alegria dos pais, Mariza preparava-se para dormir. Não se imaginava a fazer mais nada naquela noite. Seu recente marido já roncava, perdido de bêbado. Era isto o final? Seria assim o resto da vida? Que vontade louca de fugir. Começar tudo de novo, tomar um novo rumo. Mas não havia nada a fazer. A sua vida tinha terminado. Embora acompanhada, sentia-se só. Terrivelmente só. Nada a preparara para aquela vida. Era a primeira vez que saía da casa dos pais. O que devia fazer? Sentia-se uma estranha ao deitar-se naquela cama. Sentia medo do que pudesse acontecer. Nunca se havia deitado com um homem, os seus pais sempre zelaram muito por ela. Mas Mariza também era recatada, não permitia que lhe faltassem ao respeito. Mariza estava farta daquele dia. Todos pareciam estar felizes. Menos ela. Ela chorara. Tinha dito que era de alegria, quando na verdade era de desespero. Porque dera aquele passo? Antes parecia-lhe o mais ajuizado. Agora, parecia um erro. Só esperava que o marido fosse complacente com ela. Que acalmasse os nervos. Ele já lhe tinha batido uma vez. Ficara marcada na altura. Quisera desmanchar o noivado, mas a família chamara-a à razão. Não ligaram às nodoas negras, apenas à nodoa que iria provocar se desmanchasse o noivado. Agora olhava-o a dormir. Como ele ressonava. Só lhe apetecia enfiar-lhe uma almofada na cabeça, para o calar. Que raiva a tudo. Não, não dava. Tinha de sumir dali. Ir para casa dos pais. Não queria estar ali, simplesmente isso. Foi quando ele acordou. Não era possível, logo agora? Mariza começou a vestir-se à pressa, antes que ele tivesse algum ato de reação. Que sorte a sua de ter virado a cabeça e fechado os olhos. Em breve já ressonava. Não interessava mais. Com ele não ficava. Se os pais não a aceitassem iria para casa de uma amiga, até encontrar um lugar para ficar. Mas ali não ficava. Não mais. E ele ressonava... Num ápice, pegou no candeeiro atirou-o contra a cabeça dele, matando-o. Não se sentia arrependida. Era o justo para ele, nunca mais lhe bateria. Estava livre. Era tudo o que precisava.

Nossos amores do passado

O tempo é curto e só agora comecei. O nosso amor acabou e nem dei por ele. Parece-me que me passou tudo ao lado. Como isso é possível? Porque, talvez, para escapar ao sofrimento que me fizeste passar, deixei de absorver as tuas palavras para passar a ignora-las. Se te fiz feliz? Não sei, mas espero que não. Pois tu desiludiste-me. E, a partir daí, despertaste raiva em mim. Espero que tenha desapontado. Para que nunca mais faças o mesmo a alguém. Escrevo-te esta carta com a confiança que venhas a saber: odiei-te com todas as minhas forças, desejei-te o pior dos males, para agora seguir sozinha. Pois estou só, como nunca quis estar. E, agora, tenho-te a ti. Não como namorado ou amante. Mas como amigo. Piadoso, talvez. Perdi o melhor da minha vida enquanto te odiava, como com uma ferida aberta que nunca sara. Envolvi-me em confusões, menti (sem o saber), dei em louca... E aqui resto eu, um pedaço do que fui. Que confusão a minha vida está. Tu dirás que passa com o tempo. Mas eu sei, eu reconheço esta vida do passado. Eu sei que não. Tudo continuará igual. Tenho de lutar para mudar a minha vida, tal como tu lutas e lutaste. Recuperar o que perdi não é opção, isso é passado. A partir de agora apenas me resta o presente e o futuro. Ter sonhos românticos já não faz parte de mim, apenas me interessa escrever... Dar uma satisfação ao publico que acolhe as minhas escritas. Por mim eu luto, por eles, por ti... Luto para sair do poço em que me enfiei. Pois é assim que me sinto, a maior parte do tempo. E o nosso amor cambiou, mudou de expressão. De amor a amizade. Passando pelo odio. Aqui sigo com as minhas escritas e tu com o teu trabalho. Cada um tem o seu plano, nenhum passa por seguirmos juntos...

Núria

Núria escondia-se atrás de uma árvore. Não queria ser vista por ninguém. Sentia vergonha de si mesma. Enquanto esperava que as pessoas passassem para poder regressar a casa, pensava em tudo o que se tinha passado. Eram quase 6h da madrugada. Os seus amigos haviam a deixado sozinha. Nunca se devia ter separado deles, nunca. Agora estava destroçada. O que iria fazer? Nunca havia experimentado droga antes. Até aquela noite. Que erro. Se soubesse quais as consequências... O que tinha tudo para ser uma noite de arromba tinha lhe corrido mal. Não se lembrava de grande coisa, mas os rasgões da sua roupa indicavam que algo de mal se tinha passado. Tudo o que Núria queria era chegar a casa. Os seus pais deviam estar a despertar e ela ali, naquele estado. Ela não queria que a vissem assim. Tinha de tomar coragem e ir para casa. Ninguém mais se encontrava na rua agora, apenas ela. Recompôs-se e saiu de detrás da árvore. A casa de Núria ficava a apenas alguns metros. Núria correu até lá. Finalmente em casa. Fechou a porta com pouco barulho, para não dar nas vistas. Ouviu barulho. Vinha da cozinha, sua mãe estava lá, decerto. Tinha de tirar os sapatos para não a ouvirem enquanto ela subia as escadas. Tudo bom, conseguiu chegar a seu quarto sem ser escutada ou vista. Deitou-se na cama. Chorou desconsoladamente pela noite perdida. O que se havia passado de facto? Porquê os amigos a haviam deixado só? Não se lembrava de nada. apenas de tomar o tal comprimido e, depois, de acordar a um canto da discoteca com a roupa rasgada... Núria achava que devia de ir ao hospital fazer exames médicos. Mas sentia vergonha. Afinal, tivesse o que se tivesse passado, a culpa era dela. Ela é que decidira tomar o tal comprimido. A responsabilidade era dela. Bateram à porta. 'Quem é?', indagou Núria. 'É a mãe. Já estás acordada?' 'Não, ainda vou dormir um pouco.', respondeu Núria. Era o melhor que tinha a fazer. Dormir. talvez o estranho mal-estar passasse. Mas, antes, decidiu ir tomar banho. Cheirava a discoteca. Terminado o banho, foi-se deitar novamente. Só lhe apetecia dormir... Estava a ter um sonho estranho quando acordou com o despertador. Tinha-o posto para as onze. Dormiria o resto à noite. Era horas de se levantar e fazer alguma coisa. Olhou para o telemóvel. Nem uma mensagem dos seus amigos. Nada, haviam-na abandonado de vez. Ela só queria saber o que se tinha passado. E se nunca o descobrisse? Mas Núria não iria ceder. não iria ligar para eles. Eles sabiam o que se tinha passado, eram eles que lhe deviam ligar. Ela só queria saber a verdade...

O meu sentir

Aquilo que mais queria dizer ficou entalado em mim. As palavras sem sentido correram, desenfreadas. Eu estava em lagrimas. Tinha acabado, finalmente. Todo o sofrimento por que eu havia passado não tinha valido a pena. Sentia um vazio em mim que se preenchia com ar. Estava livre das dores, dos desânimos, dos desgostos. Se valeu a pena? Não. Sinceramente, essa é a minha opinião. Mas há que passar pelas tragedias para saber o que nos espera. E o que me espera é a liberdade... Decidi sair de casa. Estava cansada de estar fechada. Queria sentir o sabor do vento na minha face. Apesar do frio que se fazia sentir, não resisti. O tempo era o menos, o mais importante era o equilíbrio emocional. Eu, Ester, estava livre de vez. Tudo não tinha passado de um mau sonho. Livre, sim. Não apenas solteira. O que fazer agora com tanto tempo? Esta manhã abri a janela e tudo me parecia diferente. Como o mundo mudou enquanto eu não o observava. Eu podia esperar muita coisa, mas não isto. Onde andava eu com a cabeça? Nele, claro. Que tonta que fui. Decidi que hoje não me preocuparia com nada de casa. Hoje era só eu. Saí, respirando o ar frio e puro. Que alegria. Agora estava feito. Tinha passado o encantamento. Dei por mim observando o rio, invejando a sua rebeldia. Sempre certinha, eu era incapaz de me revelar por completo. Eu, Ester, tinha de mudar. Nada como começar de dentro para fora. Eu irei mudar, eu sei.

Rocio

Rocio mexeu-se. Acordara finalmente. Deu uma olhada em redor. Estava solta. À dias que estava ali. Quantos eram, exactamente? Cinco dias, pelos arranhões que tinha feito na sua própria pele. Aproveitou para se levantar. Odiava aquela sala. Tanto já havia vivido ali... Ele tinha-a cortado, mas Rocio ainda conseguia andar. Não sabia onde se encontrava. Tinha sido para ali levada de olhos vendados. Tudo por causa de uma boleia. Nunca lhe passara isso pela cabeça, mas os amigos tinham-na deixado no meio do nada. Cinco dias. Ninguém devia sentir a falta dela. Morava sozinha, trabalhava num call center, os amigos tinham-na deixado... Tudo lhe corria mal. Naqueles dias tinha sentido o maior terror da sua vida, e ninguém ligaria a ela. Enquanto pensava isso, procurava uma saída. As janelas eram demasiado altas, no meio do entulho havia pouco que a pudesse suster. Só se conseguisse mexer a maca... Mas, mesmo que pudesse mexe-la, não conseguiria abrir as grades. Ele tinha levado as 'ferramentas'. Não teria tempo para procurar no meio do entulho, mesmo que quisesse. Havia duas portas. Rocio ainda não as havia tentado, com medo que fossem um engodo. Tentou abrir aquela por onde o via sair. Nada. Nem se mexeu. No entanto, pareceu-lhe ter ouvido passos. Com medo, correu para a outra porta. Abriu-a com facilidade. Mas, quando viu, o chão estava coberto de vidro. Rocio estava descalça. De repente, ouviu a porta atrás dela a abrir-se. 'Com dificuldade em escolher?', disse ele, rindo-se. Rocio sabia que não tinha hipótese, estava demasiado fraca por aqueles cinco dias sem comer. Ele apenas lhe dava água, para que ela aguentasse mais um pouco... Quando ele se aproximou, Rocio pegou na faca que ele trazia e espetou-a no seu peito, morrendo quase de imediato. 'Não, porquê? Eras a minha obra de arte!', disse ele, olhando para o corpo da jovem Rocio... Pegando no corpo, levou-o pela porta de onde tinha vindo, até à rua onde tinha o carro estacionado. Colocou o corpo de Rocio embrulhado num oleado no porta-bagagens. Chovia desoladamente naquela noite. Aquele armazém ficava longe da cidade, mas ele não queria depositar o corpo lá, chamar a atenção sobre o local. Vestiu o casaco, que havia deixado no carro, pois estava frio. Iria deixar o corpo onde a havia encontrado, na berma da estrada. Ali não o preocupava que a encontrassem. Ali não a ligariam a ele. Iria deixa-la e partir. Somente isso.

Um arrepio

Um arrepio percorreu a espinha dela. Não podia acreditar no que tinha presenciado. Agora que o silêncio se tinha instalado na casa, Natália deixara se ficar debaixo da cama, aguardando. Estavam todos mortos. Porquê? Não sabia que se os seus pais tinham inimigos. E porquê matar os seus irmãos mais novos? Seria isso que estava destinado a ela?
Natália estava em choque, não conseguia chorar. A cena era demasiado macabra. Quase os tinham decapitado. Sentia raiva aquela casa, demasiado longe de tudo. Era a casa de ferias, para onde iam às vezes, nos fim-de-semanas. O seu refugio tinha-se tornado um lugar de morte. Ela teria de andar quilómetros até arranjar ajuda. Isso se ela conseguisse escapar. Eles andavam de um lado para o outro, como que a verificar se a casa estava mesmo vazia. Um deles entrou no quarto. Ia a verificar debaixo a cama quando foi chamado. Natália sentiu-se aliviada por ter escapado.
Subitamente, ouviu todos a dirigirem-se para a porta e a irem-se embora. Ficou debaixo da cama. Só muito depois de ouvir os seus carros partir é que saiu de onde estava. O cenário era horrível, parecia sair daqueles filmes de horror. Sabia que era inútil tentar usar o telemóvel ali, não tinha rede. E também tinham cortado os fios dos telefones. Não podia aguardar, tinha de ir. Correu quanto pode até perder as forças e ter de caminhar. A lua ia alta, iluminava-lhe o caminho. Fazia frio, e Natália apenas tinha um casaco leve. Esquecera-se de como as noites eram frias ali. Como seria de esperar, nenhum carro passou. Tirando os seus pais, ninguém se lembraria e ir para ali em pleno inverno. Ainda bem que não nevava, seria ainda mais difícil caminhar. A noite estava quase no seu fim quando viu luzes ao fundo. 'Que alivio.', pensou Natália. Sentindo-se com forças renovadas, começou a correr até lá. Logo que chegou a primeira porta, bateu com toda a força que lhe restava, e gritou. Veio à porta um homem de meia idade, com cara de poucos amigos.

- O que é que você quer? Não vê que ainda é cedo?

- Desculpe-me. Ajude-me. A minha família... foi assassinada.

E desmaiou. Já tinha poucas forças e não tinha sequer jantado. O homem amparou a sua queda e levou-a para dentro, onde a deitou num sofá. Quando despertou, quis dizer tudo a correr, mas o homem acalmou-a. Ela, então, disse tudo do inicio. Quando chegou ao fim, o homem disse que ia tudo correr bem que ia chamar a policia. Deu também a indicação de onde era a casa de ferias de Natália, tal como ela lhe tinha indicado. A policia foi até lá e encontrou a casa limpa e sem vestígio de sua família. Quando Natália o soube, reclamou que o que tinha dito era verdade. A policia, sem acreditar nela, mandou-a ser internada num instituto psiquiátrico, onde ainda se encontra...

Aquilo Que Ela Não Quer Ver

Fechou os olhos. Beatriz não queria ver aquilo que não estava à sua frente. O seu namorado parecia ter se tornado um bicho. Ele, Luís, sempre tinha sido um pouco violento. Ela já sentira os seus punhos. Mas agora, de faca em riste, ameaçava-lhe matar se Beatriz não tivesse relações sexuais com ele. Há um mês que lhe recusava. Ela queria acabar com Luís. Pensou que, dessa forma, ele se cansasse dela e a deixasse. Mas, agora, ali estava ele. O brilho daquela faca assustava Beatriz, ela chorava desconsoladamente. Beatriz sabia que não tinha hipótese. Apesar da gritaria entre eles, nenhum vizinho bateu à porta. Ninguém iria ajudar, ninguém chamaria a polícia. Beatriz não tinha qualquer chance. Teve de ceder. Deitou-se no chão frio da cozinha, como ele mandava. Sentiu ele abrir-lhe o botão das calças. Sentiu repulsa pura nesse momento. Mas não o demonstrou. Não queria que ele soubesse que tinha nojo dele. Só o irritaria mais, tinha a certeza. Rasgou-lhe a camisola e arrancou-lhe o soutien. Ela, assustada, gritou. Mas não tao alto quanto quando ele despiu as suas calças e entrou dentro dela. Gritou como se ele estivesse a matá-la. E estava a morrer por dentro. Enquanto ele entrava e saía de dentro dela, Beatriz tentou apurar se ouvia algum barulho de alguma vizinha. Nada! Não ouvia nada que raiva sentia naquele momento. Por ela e por ele. Enquanto ele gemia dizendo 'Amo-te', ela era incapaz de sentir esse sentimento por ele. Sentia pena, pois ele só à força conseguia algo com ela. Pena da figura que fazia. Mas, mesmo devastada, não deixou de gritar. Alguém com coração havia de aparecer. O mundo não podia ser assim tão 'negro'. Os minutos passaram e ele parou. Deixou-se estar dentro dela, enquanto Beatriz chorava. Ninguém havia aparecido, ninguém. Beatriz não o queria por perto. A faca... ali tão perto. Com cuidado, para não o assustar, tentou agarrar a faca. Quando estava prestes a conseguir, ele levantou a cabeça e viu o que ela estava a fazer. Agarrou na faca e levantou-se.

- Isto é só para aprenderes. - Disse Luís, enquanto aproximava a faca do pescoço dela.

Beatriz gelou nesse momento. Não queria morrer. Mas Luís parecia não fazer caso do rosto aterrorizado de Beatriz. Era o fim. Sentiu quando a faca lhe cortou a garganta. Nua, com frio, com o pescoço cortado, deixou-se ficar no chão. Viu-o a partir, levando a faca consigo. Será que os seus pais demorariam muito a vir? Só eles a podiam salvar.

Ana Sophya Linares