segunda-feira, novembro 05, 2018

Para lá da visão, Capítulo 20








- Célia? - Disse uma vozinha atrás de Célia.

- Joanne, meu amor. Estás acordada. O pequeno-almoço está quase pronto. Podes sentar-te. - Disse Célia, apontando para as cadeiras à beira da mesa, no centro da cozinha. - Esta casa está uma desgraça. Bem precisava de uma limpeza.

- Não temos tempo para isso. - Disse Valter. - Temos de encontrar outra solução.

- Sim, é claro. Temos de nos mover. - Disse Célia. - E se eu me transferisse de hospital e levasse ela comigo? Mudasse a cor do cabelo dela, o cortasse?

- Eras descoberta na hora. Se bem que essa ideia de lhe mudar o cabelo deve dar jeito.

- Ok. O teu primo não se levanta?

- Vou ver.

Valter foi até ao quarto de João. João estava ao telemóvel.

- Hã hã, sim. Está bem. - Disse João, desligando o telemóvel. - Sim?

- Quem era ao telemóvel? - Perguntou Valter.

- O Marcos. Preciso me encontrar com ele esta tarde. Ele tem um plano. 

- Que plano? - Perguntou Valter, encostando-se na beirada da porta.

- Também não sei. Vou me encontrar com ele, só isso.

- Ok. Está toda a gente de pé. O pequeno almoço está pronto.

- Tudo bem, vou me levantar agora.



Entretanto, na casa dos avós de Joanne...

- Fernando, ainda não sabemos nada da Joanne. Será que fui muito dura com ela? Estou preocupada. - Disse Manuela.

- Preocupada? Com o quê? Só se for que a polícia descubra que a pudemos a dormir naquele buraco. - Disse Fernando.

- Cala-te, homem. Acho que exageramos. Por isso ela fugiu.

- Cá para mim foi raptada.

- Não sabemos, homem.

- Bem, vou trabalhar. Até logo. - Disse Fernando, despedindo-se da esposa.

- Até logo.



Enquanto isso, a empregada do padre entra na delegacia para apresentar queixa do desaparecimento do padre. Marcos, que estava de saída, vê a mulher e, assustado, volta para dentro do gabinete. A empregada tenta fazer a queixa, mas o policial não liga a mínima. Diz que são precisos três dias para se começar a procurar. A empregada tenta explicar da visita no dia anterior. Mas o policial não quer ouvir e a manda embora.

Para lá da visão, Capítulo 19








Calmamente, o chefe cruzou as mãos e disse para Marcos.

- Sei que recebeste uma prova importante no caso da menina perdida e que desapareceste em seguida. A minha questão é: onde está a prova?

Marcos sentiu vontade de se enfiar num buraco. Mas endireitou-se na cadeira e, muito sério, respondeu.

-A 'prova' nada tinha a ver com o caso. Era um cartão de entrada de uma enfermeira, que tinha ido visitar Joanne na tarde anterior.

- Tens a certeza disso? - Perguntou o chefe.

- Sim, claro. Confrontei a enfermeira com a prova. Ela garantiu-me que não tinha raptado a menina. Tinha estado com um colega da segurança, em casa. - Disse Marcos, pensando rápido.

- Muito bem, podes ir. - Terminou o chefe.

Marcos agradeceu e saiu do gabinete, enquanto o chefe pegava no telemóvel. Assim que Marcos saiu, fez uma chamada.

- Estou, Lucas? Escuta-me, preciso que sigas Marcos, um dos meus delegados... Sim, aquele alto e meio musculado, de olhos cinzentos... Sim... Porquê tu? Porque se for alguém desta esquadra, ou de outra, ele sabe logo que está a ser seguido... Vá lá, tu és detetive privado, faz o teu trabalho que a delegacia paga-te depois... Sim, sei que o pagamento é mau. Depois ponho um extra do meu dinheiro... Sim... Vá, até logo.

E desligou a chamada. O chefe estava desconfiado que Marcos estava a encobrir a tal enfermeira. Só queria saber porquê.



Célia estava levantada à um pouco a fazer o pequeno-almoço quando Valter apareceu na cozinha.

- Oi... - Disse Valter.

Célia deu um pulo.

- Ai, que susto. Que fazes aqui? - Disse Célia.

- Então, venho tomar o pequeno-almoço. Sabes, costumo alimentar-me, para viver.

- Ha ha, tens cá uma piada. Estou a fazer ovos mexidos. Comprei pão de forma, não sabia se havia alguma padaria perto. Faz umas torradas, sim?

- Ao seu serviço, senhora. - Disse Valter, curvando-se perante Célia.

Para lá da visão, Capítulo 18








Voltaram a casa do padre, pois era lá que o carro de João estava. Marcos aproveitou e deixou a chave da casa do padre debaixo do tapete. E deixou uma mensagem num envelope, que encontrou na casa do padre, para a empregada. Dizia onde estava a chave.

João foi para casa dos pais e Marcos para sua casa, tomar um duche e dormir um pouco, antes de voltar ao serviço.

João abriu a porta sem dificuldade. Esta rangia um pouco e, conforme a abriu, uma vizinha veio à rua varrer. 'Mas as pessoas não dormem?', pensou. Entrou dentro de casa sem dar conversa à vizinha.

- João. - Disse uma voz dentro de casa.

Era Célia.

- Que fazes acordada? - Disse João.

- Não conseguia dormir. Tenho andado preocupada com o futuro de Joanne.

- Trabalhas amanhã?

- Não.

- Optimo. Tirei uns dias de férias. De vias tirar também. Amanha falamos. Tenta dormir.

- Ok.

Foram para a cama. A casa tinha diversos quartos, mas Célia foi dormir com Joanne, apesar do medo de tornar a ver Sarita.

Joanne acordou. Viu Sarita e os pais juntos, num canto do quarto. O padre também estava com eles.

- Já não tenho medo. - Sussurrou Sara.

E desapareceram. Célia acordou repentinamente.

- Ui, que frio. - Disse Célia. - Mas esta casa não tem aquecimento? Vou procurar uns cobertores no armário.

Joanne estava assustada, mas não o demonstrava. Célia encontrou os cobertores e pô-los na cama sobre elas. Abraçou Joanne e tornaram a dormir.



Marcos não conseguia descansar. Estava atormentado. Algo lhe dizia que alguma coisa ia correr mal. E o seu instinto raramente falhava. Levantou-se, foi tomar outro duche e tomou o pequeno-almoço. Eram quase 6:30 da manhã. Entrava às sete. Foi para o trabalho, preocupado. Assim que entrou, foi chamado pelo chefe ao gabinete.

- Entra, senta-te. - Disse o chefe.

Marcos sentou-se numa cadeira.

- Diga, chefe.

Para lá da visão, Capítulo 17






Pegaram no corpo e levaram-no até ao carro. Já era de noite, hora de jantar. Ninguém se encontrava na rua naquele bairro.

- Temos sorte. - Disse Marcos, depois de colocar o corpo na bagageira do automóvel. - Este bairro é maioritariamente habitado por pessoas idosas. Ninguém, à hora de jantar, se aventura a vir cá fora.

- Mas temos de ter cuidado, mesmo assim. - Disse João.

- Sim, ten razão. Podem espreitar por detrás dos cortinados. - Disse Marcos, entrando no carro. - Vamos, que não quero que ninguém me reconheça mais tarde.

- Vamos, então. - Disse João. - Mas até onde?

- Ora, até onde enterrados o corpo do outro homem. Não te lembras onde é?

- Lembro sim. Nunca me esquecerei. - Disse João, arrancando com o carro.

Partiram, sem se aperceberem que eram observados. Uma idosa, vizinha do padre, tinha o observado a transportar um grande volume para o carro...

Foram até fora da cidade, até ao inicio da floresta. Lá chegados, estacionaram e retiraram o corpo da mala do carro, trancando-o de seguida. Seguiram, carregando o corpo, pela floresta dentro. Levavam lanternas, para verem o caminho. Até que chegaram a uma clareira.

- Pára. - Pediu João.

- Que foi, estás cansado? - Disse Marcos.

- Estou. E este é o local.

- Hum, estou impressionado. Lembras-te mesmo.

- Alguém tem de ir buscar as pás.

- Eu vou. - Disse Marcos.

E foi. Voltou rapidamente. Sem o peso do corpo o caminho fazia-se mais depressa.

Começaram a cavar. Atiraram o corpo para dentro da cova e taparam-no. Quando acabaram, estavam esgotados.

- Anda, temos de voltar. - Disse Marcos.

Para lá da visão, capítulo 16








Célia deu umas bolachas para Joanne comer e fez-lhe festas, acalmando-a. Depois, foi fazer o jantar.

- Que sorte eu ter vindo. Nem gás havia. - Disse Valter.

- Sério? Isto não é gás natural? Ah, não, é de botija... - Disse Célia.

- Quando o João me ligou foi a minha preocupação. Tinha estado na casa às uns dias com uma garota e nem havia água quente para tomarmos banho...

- Mas a casa não era dos pais do João?

- Sim. Mas nós somos como irmãos. Fomos mais criados pela nossa avó que pelos nossos pais. Quando os pais dele morreram deu-me uma chave de casa, como irmão. Disse que podia vir cá quando quisesse.

- Vai demorar muito? - Perguntou Joanne.

- Estou a fazer a sopa. Descansa. - Disse Célia.

- Não quero estar sozinha... - Respondeu Joanne.

- Anda que o tio Valter vai brincar contigo. - Disse Valter, pegando em Joanne ao colo, fazendo-lhe cócegas.



João chegou à casa do padre. Bateu à porta.

- Até que enfim chegaste. - Disse Marcos. - Já tive de ligar para a delegacia a justificar o facto de não ter ido trabalhar o resto do dia.

- Desculpa, o caminho é longo, e estivemos a fazer compras. - Disse João.

- Compras!?

- Sim, não havia nada em casa para se comer.

- Muito bem. Agora anda a ajudar-me com o corpo.

Foram até ao quarto. O corpo já estava embrulhado num lençol. João tremeu. Marcos notou.

- O que foi? Com medo de um corpo? Foste tu que o mataste. - Disse Marcos.

- Desculpa. Nunca tinha feito isto... - Disse João.

- Estás a esquecer-te do bêbado que matou os teus pais...

- Tens razão. Mas já foi há tanto tempo. E não ganhei o gosto de matar por causa disso.

- És boa pessoa. - Disse Marcos.


Para lá da visão, capítulo 15








João chegou na casa dos pais e deixou Célia lá. Deixou a chave com ela. Célia tentou agir normalmente enquanto caminhava para a entrada, sem chamar muito a atenção. Havia uma vizinha por perto, que se aproximou.

- Boa noite, menina.

- Boa noite.

- Cheia de compras, é? Pensa ficar aqui muito tempo?

- Não sei, algum. O tempo que for preciso. E, peço desculpa, mas isso não é da sua conta.

- Que rude. Só vinha cuidar se precisava de algo.

- Não é preciso nada não, estou bem assim.

- Mas está tendo dificuldades com os sacos. Deixa que eu ajudo.

- Não é preciso, não. Vai quebrar suas costas...

Nisto, a porta abre-se.

- Oi, estava esperando você. Demorou. - Disse o homem.

- Sim... - Disse Célia, confusa.

- Dona Maria, como vai? Sou Valter, o primo do João.

- Credo, me provocou um susto. Oi, Valter. Bem, vos deixo.

- Está bom. Foi um prazer. - Disse Valter.

Mal ela virou costas, pegou nos sacos, ajudando Célia, e disse.

- Meu primo me chamou, contou o sucedido. Vá, entra depressa.

- Tudo bem...

Lá dentro estava Joanne, descansando. Via-se que tinha chorado. Célia largou os sacos que ainda levava e avançou até ela, fazendo festas na sua nuca. Joanne acordou.

- Célia! - Disse a garota, feliz.

- Sim, sou. Que passou?

- Tenho fome. Só me deram um pedaço de pão...

Para lá da visão, capítulo 14








Após Marcos pegar a chave, ficou a observar a empregada a se ir embora. Voltou para dentro de casa. Ia precisar de ajuda, pensou ao observar o corpo do padre. E já que João estava envolvido na história...

- Estou, João? - Disse Marcos no celular.

- Oi, meu irmão. Como está? - Disse João.

- Estou bem. Preciso da sua ajuda.

- Caraça. Sabe, estou meio ocupado...

- Não vem com essa, não. Eu sei o que você fez, Célia me contou. Em breve ela sairá do empregego, você vai pegar ela e deixa-la com a menina. Depois vem até aqui.

- Aqui, onde?

- À casa do padre. - E Marcos cortou a ligação.



- Tinha de dizer o que tinha acontecido? - Disse João para Célia quando a pegou.

- Peço desculpa, mas ele tinha meu cartão, ele percebeu que se passou. João, ele vai nos ajudar.

- Vai...

- Espera aí, passa na loja antes de ir até casa.

- Para quê?

- Você tem comida em casa? Ela comeu?

- ...

- Pois, bem me parecia.

João levou ela até à loja. Lá, ela escolheu alguns produtos alimentícios, pagou e saiu.

- Não me vai ajudar com os sacos, não? - Reclamou Célia.

- Sim, claro. - Disse João, agarrando em dois sacos.

Já no carro, João falou.

- Você comprou muita coisa. Nem sabe quanto tempo vamos ficar com Joanne.

- É verdade. - Disse Célia. - Não sei o que será dela...

- Ela precisa ir na escola, está na idade. Não pode ficar eternamente escondida.

- Tem razão. Mas como faço para a proteger?

- Nós haveremos de ter um plano.


Para lá da visão, capítulo 13








Quando Marcos chegou lá, a empregada de limpeza da igreja batia à porta, com algum nervosismo.

- Oi, tudo bem? É aqui que mora o padre?

- É sim. Ele hoje não foi na igreja, suponho que esteja doente. Tenho a chave, mas o padre pode estar a descansar. Sabe como são os homens quando ficam doentes. Exageram...

- Está certo. Pode me abrir a porta? Tenho um assunto sério para falar com ele.

A empregada abriu a porta. Empurrou-a e começou a colocar-se em frente a Marcos.

- Peço perdão, mas é um assunto sério e privado. - Disse Marcos.

- É algum exorcismo? - Perguntou a empregada.

- É isso mesmo. - Retorquiu Marcos.

A empregada deixou-o passar e saiu, fechando a porta atrás de si. Foi vendo as divisões, à procura do padre. Até que chegou ao quarto. A roupa da cama estava tirada. Chegou no banheiro e viu que o padre estava lá. Tudo muito limpo, o padre deitado na banheira com a garganta cortada.

- E agora, o que é que eu faço? - Disse para si mesmo.

Pensou em enrolá-lo nos lençóis e levá-lo para o carro. Mas era demasiado cedo, os vizinhos iam ver e ouvir. Precisava esperar. De repente, veio-lhe à cabeça: e se a empregada de limpeza ainda estivesse lá fora? Saiu do banheiro e foi até à entrada, onde espreitou pela janela. Lá estava ela.

- Oi, não precisa ficar não. O padre apenas se estava sentindo indisposto hoje, ele agora quer falar comigo. Diz que amanhã fala com você.

- Bem, se é assim, vou andando. - Disse a empregada.

- Olhe, espere. - Disse bruscamente Marcos. Pode me emprestar a chave? É que o padre está de cama. E eu preciso ir buscar algo a casa.

- Como não? Está aqui, pode pegar.

Marcos agradeceu e despediu-se dela.

Para lá da visão, capítulo 12








A polícia entrevistou a dona Manuela. Depois de algumas perguntas básicas, puseram-se a investigar o quintal, o quarto de Joanne e a casa em si. Depois de algumas horas, encontraram algo no quintal. O detective olhou para o objecto, pediu perdão, que tinha outro compromisso e retirou-se.



Célia, no hospital, estava a cuidar de uma senhora idosa quando ouviu chamarem pelo seu nome à recepção. 'Que estranho.', pensou. Dirigiu-se à recepção, então.

- Sim, chamaram-me... - Disse Célia, prontamente interrompida.

- Célia, como está? Nunca mais a vi desde aquela noite. - Disse o homem.

- Peço desculpa, estou a trabalhar, não tenho tempo para isto. - Disse Célia, atrapalhada.

- Também venho a trabalho. - Disse ele, mostrando o distintivo. - Vamos falar num local mais privado, sim?

Célia assentiu. Dirigiram-se à rua, ao pé do carro de Marcos, o detective.

- Então, o que te traz por cá? - Perguntou Célia.

- Foi encontrado este cartão do hospital perto de uma janela do quarto de uma menina desaparecida. Penso que te pertence. - Disse Marcos.

- Não sei de que estás a falar? Desaparecida!? Eu fui ontem ver a Joanne, se é dela que te deveres. Devo ter perdido na altura...

- Sim, a avó falou-me disso. Mas, sabes, o meu instinto não me engana. Tu sabes algo sobre isso. Podia te levar agora mesmo para a delegacia. Mas algo me diz que, se o fizeste, tens uma boa razão para isso. Porque não me contas a história?

- Nem sei do que estás a falar, eu não fiz nada...

- Célia. Fala.

Vendo a atitude de Marcos, não lhe restou outra hipótese a não ser falar. E contou tudo.

- Tu tens noção do que fizeste? Tudo por causa de um exorcismo? E o João está metido nisso? Onde está o padre? - Perguntou Marcos.

- Não sei, em casa. - Respondeu Célia.

- Não sei como vou fazê-lo, mas vou vos ajudar. Mas tens de me garantir que vais procurar ajuda para ti, sim? Tu precisas.

- Ok.

Para lá da visão, capítulo 11








Chegadas ao automóvel, esperaram. Visto ser tarde, Joanne descansou. Enquanto isso, Célia estava bem desperta. Quando o dia começou a raiar foi quando João apareceu. Trazia um casaco meio aberto, pois era demasiado apertado. Era do padre, com certeza. Ele pretendia não chamar a atenção para o sangue na sua camisa.

- Vamos. - Disse João.

- Onde? Eu tenho de ir trabalhar. Mas não podemos deixá-la de volta na casa dos avós. Nem posso deixar de ir trabalhar, associam logo ao desaparecimento dela. Portanto, vamos onde? - Disse Célia.

- A casa dos meus pais.

- Tu moras com os teus pais?

- Não, eles faleceram anos atrás. Mas a casa é minha, não tenho irmãos. Só um tio que às vezes quer disfrutar da casa. Mas é melhor primeiro levar-te ao hospital. O caminho é longo, irias faltar. Eu levo a Joanne e vou te buscar num local combinado, à tarde.

- Ok. - Disse Célia.

Entretanto, Joanne acordou.

- Descansa, querida. Em breve estarás protegida. - Disse Célia.

E explicou-lhe o que se iria passar.

- Tudo bem? - Perguntou Célia.

Joanne encolheu os ombros e fez que sim com a cabeça.

- Tenho fome. - Disse Joanne, de seguida.

- Toma, tenho uma barra de cereais. Come, querida. - Disse Célia.



João levou-a como combinado ao hospital. Ao chegar lá deu por falta do cartão de entrada, mas deixaram-na trabalhar mesmo assim.



Na casa dos avós de Joanne, o alvoroço era grande.

- Mas onde será que se meteu? Joanne! - Gritou a avó.

- Olha, que se lixe a miúda, vou trabalhar. - Disse o avó.

- Fernando, não é bem assim. Vou ter que chamar a polícia.

- Faz o que quiseres, Manuela.

- Mas não queres estar cá em casa quando ela vier?

- E faço o quê? Não sejas maluca. Vou é trabalhar que já estou atrasado.

- Pronto, como quiseres... - Disse Manuela, a avó de Joanne.

Fernando, o avô, deu um beijo na esposa e saiu. Manuela telefonou à polícia, que foi rápida em chegar.

Para lá da visão, capítulo 10






- Então, como estão as coisas? – Perguntou Célia.

- Tudo bem, estávamos a ter uma conversa interessante. – Disse o padre. – Ela estava a contar-me coisas sobre a sua irmã. Principalmente, que ela se encontra na nossa companhia.

Célia e João sentiram um arrepio.

- Não sei se gosto disto… - Disse João.

- Por favor, fica. Precisamos de ti.

João hesitou. Mas acabou por concordar ficar.

- Que precisam? – Perguntou João.

- Precisamos que nos ajudes a amarrá-la à cama. – Disse Célia

- Mas que tirania! Ela é apenas uma criança.

- Por favor, é necessário. – Disse o padre. – Não sabemos o que vem aí.

- Está bem…

A menina foi pelo pé dela até ao quarto de hospedes. Era lá que iria ser realizada o exorcismo. João amarrou-a bem à cama, dando alguma liberdade de movimentos à pequena Joanne. Depois, quando acabou, o padre, já com a batina vestida, abriu o seu livro de exorcismo e começou. Joanne, conforme o padre ia dizendo as palavras, começou a contorcer-se na cama. João e Célia estavam assustados.

Até que Joanne mudou de cara, parecia morta, como se tivesse sido enterrada, sufocada. Depois, gritou.

- Quem se atreve a me incomodar? Daqui não saio!

- Como te chamas, filha de Deus? – Perguntou o padre.

- Sara, a esquecida. Daqui não me tiram. Ela vem comigo para o além.

- Credo, não era isto que esperava. Parece saído de um filme… - Interrompeu Célia.

- Cale-se. Estamos a comunicar.  – Disse o padre.

De repente, a cara do padre também começou a mudar, enquanto Joanne acalmava e mudava para a normalidade.

- O que é que se passa?... – Perguntou João.

- Acho que interrompi a ligação, que o espirito está agora a possuir o padre. Rápido, ajuda-me a libertar a Joanne.

- ELA É MINHA!!! – Gritou o padre.

João, para proteger Joanne e Célia, lutou contra o padre possuído, que o atirou para o outro lado da sala. Vendo que o padre possuído se dirigia a Célia, levantou-se e chamou-o.

- Vem aqui. É comigo que queres lutar, Sara.

O padre olhou para ele e avançou contra João. Lutaram. Quando estava quase a atirá-lo contra a parede outra vez, não teve outra hipótese senão sacar da faca de mato que tinha consigo e degolar o padre.

- Oh meu Deus, que fizeste? – Disse Célia.

- Desculpa, tinha de vos proteger.

- Que fazemos agora? – Perguntou Célia.

- Vai com ela para o carro, que eu fico a limpar isto. Vai!

Célia e Joanne foram.

Para lá da visão, capítulo 9






Quando chegaram, Joanne já dormia. Bateram á porta, João pegando na pequena Joanne ao colo. Ouviram-se passos arrastados.

- Sim, quem é?

- Senhor padre, peço perdão por incomodar o seu descanso, mas temos alguma urgência.

- É você, Célia? – Perguntou o padre.

- Sim, sou eu, um colega, e a menina.

O padre abriu a porta, confirmando quem estava à porta.

- Entrem, se faz favor…

Eles entraram. Joanne, entretanto, acordou.

Foram até á sala dos cómodos do padre.

- Sentem-se, por favor. – Disse o padre.

Todos se sentaram.

- Então esta é a menina. Conta-me, como tens passado?

- Obrigam-me a dormir na cave da casa. Só hoje é que me deixaram dormir no meu quarto…

- Pois, essa é outra questão. Em breve vão dar pelo ‘rapto’ de Joanne. Mas não a podemos devolver aquela casa. Ela é maltratada lá. – Disse Célia.

- Ela matou os pais… - Disse o Padre.

- Ela foi possuída, eu tenho a certeza disso. Ela foi orientada pela irmã morta. – Disse Célia.

Fez-se um silêncio.

- Toma noção do que tu dizes…  -Disse João. – Já viste como soas?

- Como soou? Como uma louca? Eu não estou maluca, nem ela. Tu viste o mesmo que eu no vídeo. – Disse Célia.

- Sim, mas há sempre outras hipóteses. Ela pode mesmo ter problemas mentais, apesar disso.

- Olha para ela. Parece ter problemas mentais? Não, é uma criança incompreendida e maltratada pela própria família.

- O padre o disse, ela matou a família. Podem não estar muito satisfeitos com ela.

- E deixam-na passar fome e frio por isso? É uma criança, João. Merece carinho, atenção. Mais valia a terem deixado no hospital.

- Célia, vamos falar lá fora. Tu estás nervosa e o padre deve precisar de falar com ela a sós…

Célia respirou fundo.

- Está bem. – Disse Célia.

Célia fez uma festa na face de Joanne antes de sair, dizendo-lhe um ‘Até já’.

- Bem, agora somos só nós. – Disse o padre.

Joanne encolheu-se no seu canto, fazendo que sim com a cabeça.

- Diz-me, como aparece a tua irmã?

- Ela aparece ferida nos pulsos. Sangrando…

- Sim, mas como? É preciso algo para chamá-la?

- Não. Ela está ali, à espera. Está zangada. – Disse Joanne, apontando para a parede atrás do padre.


Para lá da visão, capítulo 8








- A visita terminou. - Disse a avó, passado uma hora e meia. - Peço desculpa, mas tenho de fazer o jantar.

- Sim, com certeza. - Disse Célia. - Tens dormido melhor, minha querida?

Mais uma vez, Joanne olhou para a avó, depois para Célia e fez que sim com a cabeça.

- Muito bem, vou-me embora agora. - Disse Célia.

Célia deu dois beijos na face de Joanne, que aproveitou para sussurrar.

- Ajuda-me...

Célia olhou muito seriamente para Joanne e deu sinal de ter percebido algo. Disse adeus e partiu.

Depois de Célia partir, a avó de Joanne mandou-a para o quarto. Joanne agarrou-se ao seu peluche favorito e ia para a cave, quando a avó disse.

- Não. Para o teu quarto. Hoje dormes lá. Espera que te chame para jantar.

Joanne ficou admirada com a mudança da avó, mas não discutiu. Sabia bem voltar a dormir numa cama, e não no chão duro e frio da cave, sem nada para se cobrir e atormentada pela irmã e pelos pais.

O avô chegou pouco depois e a avó contou-lhe o que se tinha passado.

- Fizeste bem. Não venha alguém verificar algo, o melhor é ela estar dentro da normalidade.

- Com certeza. - Disse a avó.



Depois de sair de casa, já a alguns quarteirões, ligou para o colega segurança.

- Sim, estou?

- Sim. Preciso da tua ajuda para algo...



Nessa noite, Joanne adormeceu mais calma. A avó fechou a janela, com medo que algo acontecesse. Mas deixou-a dormir de luz acesa, para que não tivesse medo.



- Tens a certeza que é aquela? - Disse João, o segurança.

- Sim, é aquela janela. Vês como as paredes são cor de rosa? Tenho a certeza que é aquele quarto.

- Bem, segura a escada.

João subiu até à janela. Viu que era o quarto de Joanne e fez sinal à Célia. Tentou, de seguida, abrir a janela, sem sucesso. Como tal, bateu na janela repetidamente, até que a menina acordou. Mas, com o barulho, também despertou a avó. Antes que ela chegasse, desceu um pouco as escadas, escondendo-se.

- O que se passa aqui? - Disse a avó, de mau humor.

A menina estava a tentar abrir a janela.

- Tenho calor...

- Calor!?

- Sim...

A avó destrancou a janela e abriu uma fresta, sem olhar para baixo.

- Já está. Passa frio. Mas dorme sem fazer barulho.

- Está bem. - Disse Joanne, aparentemente obedecendo.

Mas, mal a avó saiu, Joanne foi até à janela, abri-la mais, com cuidado.

João subiu e, segurando em Joanne, levou para baixo. Quando chegaram lá a baixo, disse.

- Menina, a tua avó assustou-me.

- Shiu. - Disse Célia.

- Para onde vamos? - Perguntou Joanne depois de estarem dentro do carro.

- Eu sei para onde vamos... - Disse Célia.

Para lá da visão, capítulo 7






Joanne foi para casa com os avós, que tinham recomendações dos médicos para vigiá-la. Assim foi. Joanne estava apreensiva com este regresso. Durante o tempo que havia lá estado, apenas agora havia recebido as visitas de parentes. Chegada a casa, agarrada a um peluche de um cão, deixou se levar até ao quarto que lhe estava destinado. Ou assim parecia. Era um quarto cor de rosa, cheio de brinquedos.

- Este é o quarto que vais mostrar às visitas. - Disse a avó.

De seguida, puxou por ela e levou-a até à cave.

- É aqui que vais dormir. - Disse a avó.

- Mas aqui está frio e escuro... - Disse Joanne.

- Consegues imaginar onde estão os teus pais? Eles disseram que sim, no hospital. Que tens muitas alucinações. Eles também têm frio, estão nesse escuro. Aprende a viver com eles. - Disse a avó, saindo e fechando a porta da cave atrás de si, deixando Joanne sozinha naquele lugar.

Joanne agarrou-se mais que nunca ao boneco.

- Não te preocupes, cachorrinho. Alguém virá nos ajudar. - Disse Joanne, com saudades do hospital.

Ela esperava que viesse mesmo alguém...



Célia não descansou enquanto não encontrou a morada dos avós de Joanne. Escapuliu-se até aos arquivos e, sem ninguém ver, verificou o arquivo de Joanne. Depois de a descobrir, esperou até à hora de saída. Nesse dia saía às 16h, dava tempo de ir dar uma visita até lá.

Sem avisar ninguém, apareceu à porta dos avós de Joanne.

- Boa tarde. Vinha ver a Joanne. Eu chamo-me Célia, trabalho no hospital.

- Boa tarde... Não estávamos à espera de visitas... Eu vou chamá-la. Importa-se esperar na rua um bocado? Tenho a casa um pouco desorganizada, sabe como são as crianças...

- Claro, sem problema.

Célia esperou. A avó de Joanne foi buscá-la à cave.

- Não sei quem esta pensa que é, mas tens visitas. Anda, vamos te limpar e mudar de roupa. - Disse a avó.

Demoraram uns bons quinze minutos. Célia, farta de esperar, tocou à campainha, novamente.

- Já vai... - Disse a avó. - Anda, veste este vestido cor de rosa e vai para a sala.

A avó foi abrir a porta.

- Sim, pode entrar. - Disse a avó.

Célia entrou. Assim que o fez, a menina correu para os seus braços.

- Joanne, minha querida. Como estás?

Joanne olhou para a avó com receio, olhou novamente para a Célia, sorriu e disse.

- Bem.

- Tens a certeza? - Perguntou Célia.

- Sim.

Célia não estava convencida. Algo lhe dizia que havia alguma coisa errada. Mas decidiu ignorar, por ora, e dedicar-se a ver aquela menina brincar com os seus brinquedos.


Para lá da visão, capítulo 6






- Não estás sozinha. - Dizia Célia, entre lágrimas, enquanto acariciava a cabeça de Joanne. - Eu sei o que se passa. Não estás mais sozinha. Eu vou te ajudar. - Disse, num sussurro.

- Obrigada. - Disse Joanne.

Estava de volta ao seu quarto. As ordens eram para vigiá-la constantemente. Nada de facas na mão dela. Eram as enfermeiras quem cortavam a comida dela, agora. Joanne estava mais presa. Não literalmente, pois, mais uma vez, haviam tido pena dela e não a tinham preso. Isso e devido a muita pressão da enfermeira Célia, que havia assegurado que, com as novas medidas de segurança, ela não voltaria a fazer mal a ela ou a quem quer que fosse.

Joanne estava rodeada dos seus bonecos de peluche. Brincava com eles como uma criança normal, fazendo teatrinhos. Mas estes não eram normais. Falava de Sarita, da sua obsessão de levar a sua irmã à morte. Ninguém lhe dava importância, exceto Célia. Esta observava com atenção as brincadeiras de Joanne.

- É isso o que ela quer, Joanne? Que tu mortas? Que fiques com ela? - Perguntou Célia a Joanne.

Joanne encolheu-se e, depois, fez que sim com a cabeça.

- Isso não vai acontecer. Eu vou encontrar ajuda.

'Mas como encontrar?', pensou Célia. O que precisavam era de um padre exorcista, mas nunca lhe iriam deixar levar um para o hospital psiquiátrico. Diriam que Célia é que era a louca. Mas ela podia aprender com o padre. Ora aí estava uma solução.

E assim foi. Ao longo de meses, foi ter com um padre e, depois de lhe explicar a situação, este acedeu a ajudá-la. Ensinava-lhe os ritos religiosos para retirar um espírito de sua casa.

Joanne ia crescendo. Ninguém parecia muito interessado em saber que ela já devia ter aulas, como as crianças normais. Ainda acalentavam a esperança de que os familiares a fossem buscar, que a levassem, que a perdoassem pelos seus atos. Mas isso não aconteceu, durante meses. Até que, um dia, os avós paternos passaram pelo hospital e pediram para vê-la. Tempo havia passado, e estavam, ou aparentavam estar preocupados com a neta. Viram-na através dos vidros e lágrimas vieram-lhe aos olhos. Pareciam mesmo gostar de Joanne. Ficou decidido, dias depois, entregar Joanne aos avós paternos, tal como eles tinham requisitado. Todos acreditaram no amor dos avós paternos. Exceto Célia. Ela era contra esse regresso, mas nada podia fazer.

Para lá da visão, capítulo 5






Célia não saiu derrotada. Esquivando-se aos chefes, foi até ao gabinete de segurança, onde estava as gravações do quarto onde havia estado. Apenas um segurança se encontrava lá, de momento. E esse segurança devia um favor a Célia.



- Olá. - Disse Célia.



- Ah? Olá. - Disse o segurança.



- Preciso que me vejas uma coisa.



- Não posso, Célia. Sabes que tenho de vigiar o hospital todo.



- Saí com o teu amigo, como me pediste, no outro dia. Ele gostou. Por isso, deves-me este favor. Vê as filmagens no quarto da Joanne, há uma hora atrás.



- Podes me fazer perder o emprego, mas está bem...



Viram as filmagens. Viram Célia a dormir. E viram um estranho vulto aproximar-se de Célia, até esta acordar.



- Não estou louca. Nem ela. - Disse Célia. - Obrigada.



- De nada, sempre às ordens... - Disse o segurança.



Célia voltou ao serviço, normalmente. Queria ver como Joanne estava, mas sabia que isso agora não era possível. Teria de esperar.



Joanne estava a descansar. Era quase de manhã quando acordou. Da sua janela gradeada conseguia ver o nascer do sol. E era tão lindo. De repente, apercebeu-se que, somente quando se matasse, aquelas visões assustadoras parariam. Mas como o fazer naquele quarto? Apenas quando almoçava e jantava lhe traziam uma faca de papel. Joanne tinha medo, mas havia de ter coragem.



Chegou o almoço. Trouxeram-lhe o comer, conforme esperado. Ninguém ficou a observar, tinham confiança nela. Mal a porta se fechou, começou a serrar os pulsos, até fazer sangue. Sim. Em breve faria companhia a Sarita. Até que uma enfermeira entreabriu a porta, para ver como ela estava.



- Joanne, estás bem?... O que estás a fazer!? Ajuda! Ela está a tentar cortar os pulsos!



Em breve uma horda de enfermeiros chegou lá para a ajudar. Os ferimentos não eram profundos, pelo que foi possível salvá-la.

Para lá da visão, capítulo 4






Joanne demonstrava cada vez maior sonolência durante o dia, o que indicava que, de noite, não dormia bem. Mais uma vez, sentiam pena dela e não lhe queriam administrar comprimidos de dormir, pelo que a solução encontrada foi as enfermeiras fazerem meio turnos no quarto de Joanne, para que não dormisse desacompanhada. E assim aconteceu. A princípio, Joanne dormia bem. Mas, depois, começaram os problemas.... Acordava a meio da noite a gritar, destapava-se sozinha... Este ultimo facto era muito estranho pois, conforme mais de uma enfermeira constatou, os lençóis pareciam ganhar vida própria. As enfermeiras comentavam entre si esse facto. Mas ninguém queria avançar com o testemunho que talvez a menina estivesse mesmo assombrada.



Uma noite, a enfermeira, cansada, deixou-se dormir. Joanne acordou durante essa altura, sem fazer barulho nenhum. Viu como a irmã, do canto onde ela se encontrava, avançava para a enfermeira, até estar cara a cara. A enfermeira acordou. Viu Sarita com claridade. Gritou e saiu do quarto, pedindo ajuda. Quando chegaram outros enfermeiros, verificaram que somente Joanne se encontrava no quarto.



- Mas eu vi, eu juro que vi. Ela sangrava dos pulsos, tal como a menina descreveu a irmã.



- Célia, tu estavas a dormir. Tiveste um pesadelo. Talvez influenciada pelas palavras de Joanne, viste a irmã no teu sonho...



- Mas eu vi...



- É melhor saíres do quarto. Isabel vai te substituir.



- Está bem...



Célia obedeceu. Ficou a olhar fixamente para Joanne, e, depois, saiu. Entrou Isabel. Esta contou uma história a Joanne, para dormir mais calma. E, de facto, Joanne fingiu estar calma. Na verdade, sabia que, agora, alguém acreditava verdadeiramente nela. Célia acreditava.

Para lá da visão, capítulo 3






- Mocinha, não está ninguém ali. E seus pais... Estão mortos, lembra? - Disse a enfermeira.



Joanne olhou para a parede onde tinha visto os pais. A enfermeira, em segredo, sem que Joanne reparasse, benzeu-se.



- Viu? Não há ninguém ali. Pode voltar a dormir, sua boba.



Joanne obedeceu, deitando-se normalmente.



Ninguém queria realmente culpar Joanne no hospital. Tinham pena dela, tão nova e com problemas tão graves. Ninguém da família a aceitava de volta, condenando-a a viver no hospital. Pois, com o passado dela, nem estava apta para ser posta numa família de acolhimento.



As visões foram se intensificando. Todas as noites via a sua irmã, Sarita. A principio não tinha medo. Causava-lhe conforto, até. Mas, com o passar do tempo, a visão de Sarita foi piorando. Cada vez mais reclamava que tinham cometido um erro, que agora os pais estavam com ela, algo que Sarita não queria. Os pais também apareciam, pedindo perdão por algo que não sabiam. Até que os três começaram a pedir que Joanne se juntasse a eles...

Para lá da visão, capítulo 2



Já no hospital, onde foi observada, não encontraram nada de anormal nela. Como era demasiado nova, não a podiam mandar para a prisão. Pelo que prolongaram o seu internamento. Tentaram questionar familiares para ficar com ela, mas todos se recusaram, por ela ter assassinado os próprios pais. Como tal, os meses passaram. Silencio absoluto, era o que Joanne sentia. Desde a morte dos seus pais que tinha deixado de ver a sua irmã. Até que, uma noite, acordou com uma estranha sensação de estar acompanhada. Acendeu a luz do quarto e, ali, a um canto, estava a irmã.

- Sarita, que fazes aqui? - Disse a menina, sussurrando.

Foi também num sussurro que veio a resposta.

- Fizemos mal... Eles estão aqui.... Comigo. - Disse Sarita, apontando para a parede oposta.

Joanne olhou para lá e viu os seus pais, de braços abertos.

- Filha, porque nos mataste? Nós amávamos-te...

Joanne correu para a cama e escondeu-se debaixo dos lençóis. Precisava de ajuda, mas quem iria acreditar nela?

- Filha... - Ouviu Joanne.

Agarrou-se mais aos lençóis, temendo que lhe fossem fazer mal. No entanto, o som parou e, no que lhe pareceu séculos, minutos depois apareceu uma enfermeira para verificar o estado de Joanne.

- Oi, mocinha, tudo bom? - Perguntou a enfermeira. - Porque está debaixo da coberta? Tem medo de algo?

- Eles estavam aqui, mesmo aqui. - Disse Joanne.

- Quem?

- Os meus pais.

Para lá da visão, capítulo 1






Havia uma rapariga chamada Joanne. Ela era muito quieta e, quando perturbada, enervada, costumava dizer ‘A minha irmã está a observar.’, olhando, depois, para uma janela vazia. Ninguém entendia porquê. Nunca a haviam visto com a tal irmã. Ela costumava passear, falando sozinha, dando a mão ao ar…

- Aquela rapariga é estranha. – Costumavam dizer os vizinhos.

Mas tinha 6 anos, talvez fosse um amigo imaginário.

Até que começou a revelar factos sobre a ‘irmã’. Tinha dezasseis anos, era loura com olhos castanhos, nervosa, medrosa. Mas muito protetora. Os pais de Joanne vieram a saber disso, até que falaram que, um ano antes de Joanne nascer, a irmã dela morreu. E era tal e qual como ela a descrevia.

- Ela era assim, tal e qual. – Disse a mãe.

- Que aconteceu com ela? – Perguntou um vizinho.

- Matou-se… - Respondeu a mãe.

Mas a versão de Joanne era diferente. Tinha sido assassinada. E, sem ninguém saber, a irmã incumbira-a de matar quem a tinha matado, quem, por seu silêncio a havia levado a um fim trágico: os seus pais.

E um dia aconteceu. Joanne esperou que os seus pais se fossem deitar. Depois, seguiu as instruções da irmã. Foi buscar a arma do pai ao escritório dele, onde ele a tinha guardado. Depois, voltou a subir as escadas, foi ao quarto dos pais e disparou sobre eles…

Quando a polícia, alarmada pelos vizinhos, chegou, encontraram-na sentada na frente da casa, com a arma na mão. Depois de verificarem o cenário, e depois dos serviços sociais chegarem, perguntaram-na porque tinha feito isso. Ela respondeu.

- Porque a minha irmã pediu. Não a veem? Ela está aqui, coberta do seu sangue, porque os nossos pais não a ajudaram.

Os policias olharam uns para os outros, não viam ninguém para onde ela apontava. Então, foi decidido pedir o mais urgente possível uma consulta clinica de psiquiatria, para lhe fazer ver que os fantasmas não existem…